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quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Robert Morgenthau: O repouso do perdigueiro


Do Estadão

Há 30 anos, seus críticos diziam que ele estava velho para o cargo. , promotor público de Manhattan, tinha 60 anos.

Aposentou-se aos 90 esta semana e tornou-se o parâmetro pelo qual outros promotores públicos serão medidos, como o prefeito Fiorello LaGuardia tornou-se a medida padrão dos prefeitos de Nova York.

Não só a história de Nova York, mas a história americana do século 20 passa pelos Morgenthau, judeus alemães.

O bisavô fez fortuna fabricando charutos. Imigrou da Alemanha para os Estados Unidos em 1866, mas aqui não teve tanto sucesso nos negócios. O filho dele Morgenthau Sr. foi embaixador dos Estados Unidos no império Otomano durante a Primeira Guerra, e o mais alto funcionário americano que teria sido informado sobre o genocídio dos armênios pelos turcos. Depois da diplomacia fez fortuna em imóveis em Nova York.

O neto foi para a mesma faculdade de Franklin Roosevelt e eram vizinhos de casa em Hyde Park. Quando FDR foi eleito presidente, o vizinho de casa no subúrbio passou a ser também vizinho de mesa noutra casa, a Branca, como Secretário do Tesouro durante a Grande Depressão.

Uma das mais importantes medidas que ele vendeu para o presidente foi subir o preço do ouro - ideia roubada de um professor da faculdade - em 21 centavos para desvalorizar o dólar e aumentar o preço de tudo, em especial de alimentos. Por que 21 centavos?, perguntaram ao presidente. "Porque 3 x 7 são vinte e um", respondeu. Acharam que era o debochado senso de humor de FDR, mas Morgenthau depois contou que ninguém sabia exatamente porque o aumento foi de 21 centavos. Pura sacação.

E foi dele a ideia do orçamento duplo na Grande Depressão. Um sem déficit, outro, de emergência, brutalmente deficitário para financiar os planos sociais de Roosevelt. Grande parte do sistema de previdência social americano foi desenhado por ele.

Em 44, criou um plano para a Alemanha pós-guerra. O plano vazou e era tão anti-Alemanha que foi usado por Goebells, ministro da Propaganda, para mobilizar o desmoralizado espírito de luta das tropas de Hitler e teria prolongado a guerra por várias semanas. O verdadeiro autor do plano teria sido o vice de Morgenthau, mais tarde preso como espião soviético. Outra boa história, mas Morgenthau caiu em desgraça e foi dispensado por Truman.

Mas nosso personagem é o filho dele, Robert Morgenthau, bisneto do fabricante de charutos, quarta geração de gente que fez.

O Senhor da Lei e Ordem foi nascido e criado em berço de ouro. Quando era adolescente, serviu drinques para Churchill na casa do pai. Apoiou John Kennedy desde cedo e foi nomeado pelo presidente promotor federal do 5º distrito sulista, do qual fazia parte o sul de Manhattan, inclusive a Wall Street. Ele criou a primeira divisão especializada em crimes do "colarinho branco": evasão de impostos, fraudes, informação privilegiada, contabilidade falsa: "Nova York é a capital mundial das finanças. Precisa transmitir segurança aos investidores", dizia, e soltava os cachorros federais nos canalhas.

Com um zelo de perdigueiro, perseguiu banqueiros, corretores e contadores, e ele, um milionário, lamentava que seus bandidos ricos fossem vistos com mais simpatia pela sociedade do que ladrões comuns.

Democrata e liberal, jamais pediu a pena de morte para seus suspeitos nos tribunais, mas recebeu um recado logo depois da eleição de Nixon: demita-se ou será demitido.

Morgenthau tentou se eleger governador de Nova York e perdeu por 500 mil votos para Nelson Rockefeller, mas se elegeria nove vezes para promotor de Manhattan, onde ficaria 34 anos, um recorde.

Quando foi eleito, na década de 70, a cidade estava falida. Ele não tinha dinheiro para contratar secretárias, investigadores ou conduzir investigações fora da cidade, mas todas semanas fazia uma caminhada mendicante até a prefeitura e saia de lá com um dinheirinho e promessas.

O orçamento dele multiplicou e, em uma década, ele quadruplicou o número de promotores negros, contratou 25 latinos - o escritório só tinha um - e o número de mulheres subiu de 19 para 129. E também muitos brancos da aristocracia política americana, entre eles John Kennedy Jr. e Andrew Cuomo, filho do ex-governador de Nova York.

O prefeito Rudolph Giuliani e o chefe de polícia William Bratton levam o crédito para a redução do crime em Nova York na década de 90, mas ninguém colocou tantos banqueiros, locatários abusivos, traficantes, chefes de gangues e líderes da Máfia na prisão como Robert Morgenthau. Ele se orgulhava de dois números: seus processos tiveram 73% de condenações, um recorde na cidade, e ele devolveu US$ 175 milhões aos cofres de Nova York, roubados pelos colarinhos brancos de Wall Street e da Máfia.

O personagem do promotor de Law and Order, um dos mais duradouros e bem sucedidos seriados da televisão americana, foi inspirado em Morgenthau, mas neste caso a realidade supera a ficção. Que Mister Lei e Ordem repouse em paz. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

domingo, 3 de janeiro de 2010

A receita de Bratton contra o crime


De Adriana Carranca - do Estadão


Quem é William Bratton?

Apontado pelo então prefeito Rudolph Giuliani como chefe das polícias de Nova York, foi o estrategista do Tolerância Zero, que reduziu o nível de violência ao menor entre as grandes cidades Americanas. Durante seu comando da polícia de Los Angeles, os homicídios caíram pela metade; em NY, chegou a 80%

William Bratton é um Midas da segurança pública. Homem forte do então prefeito Rudolph Giuliani, de Nova York, entre 1994 e 2001, e estrategista do Tolerância Zero, fez com que os homicídios caíssem em 80%, atingindo o men
or nível desde 1964. Ao deixar o comando do Departamento de Polícia de Los Angeles, no fim de 2009, a cidade celebrava queda dos crimes por sete anos seguidos - desde a sua chegada, portanto, em 2002.

Aos 62 anos, o ex-policial de trânsito que transformou as duas mais violentas metrópoles americanas nas mais seguras revela a sua receita contra o crime. Ele falou ao Estado, por telefone, de seu escritório em Nova York, onde acaba de assumir o cargo de CEO da Altegrity, de consultoria em segurança pública.

MAPEAR O CRIME

O uso estratégico de informações criminais é o alicerce da política de Bratton. Quando iniciou a carreira, em Boston, o colega do Departamento de Trânsito Jack Maple reduzira em 27% os crimes no metrô ao pontuar com alfinetes coloridos em um mapa de papel a geografia das ocorrências. Isso permitiu rastrear a ação dos criminosos e se antecipar a eles. Simples assim.

Bratton levou a ideia para o Departamento de Polícia de Nova York, onde implantou um sistema mais sofisticado, o CompStat (Estatísticas Comparativas, na abreviação em inglês). Em um único banco de dados estão todas as informações sobre ocorrências, da localização, data e hora à roupa usada pelo criminoso, número de disparos, armas usadas, mesmo por policiais, abordagem, perfil do bandido e da vítima, forma de atendimento, apreensões e prisões feitas, entre outros dados colhidos no local do crime e nos depoimentos, e atualizados com informações de casos relacionados, posteriormente.

CORTAR O MAL PELA RAIZ

O CompStat permitiu identificar criminosos, rastrear suas ações, estabelecer perfis de vítimas potenciais, riscos, tendências. "Isso nos permitia identificar novos padrões de crime e atacá-los logo no início, deslocando homens e recursos de forma mais eficiente. Íamos cercando os criminosos", diz Bratton. Os dados eram disponibilizados à promotoria pública, às secretarias, como Educação, e outros órgãos, que passaram a atuar de forma integrada à polícia.

Outra medida foi atacar o que Bratton chama de crimes contra a qualidade de vida, como pichações e arruaça, estratégia pela qual o Tolerância Zero ficou conhecido. "Isso cria uma sensação de ordem e de comando, o que contribui em muito para o trabalho da polícia", justifica Bratton.

COBRAR RESULTADOS

Em Nova York, o sistema era abastecido pelos 76 comandos das 9 áreas de policiamento e dos 12 distritos da região metropolitana. Além dos dados, eles tinham de apresentar um relatório sobre casos relevantes e uma análise dos crimes em sua área, as atividades e a performance de sua equipe. Tudo era discutido em encontros semanais com Bratton.

"É como um médico, que pede exames de rotina para identificar doenças no início. Se ao analisar as informações, descobrir um melanoma, irá concentrar ali o tratamento, evitando que se transforme em um câncer mais sério e mortal. Nossos diagnósticos semanais tinham a mesma função", diz.

Uma vez por mês, o chefe de polícia se reunia com todos os comandantes locais. "O que fazíamos, basicamente, era questionar cada um na frente dos outros, com base em informações muito bem embasadas do CompStat". E, sem rodeios, "o crime aumentou na sua área?, por que e o que você fez a respeito?", questionava. As reuniões também criaram um canal de acesso direto dos oficiais com a cúpula da segurança pública e permitiram que a informação fluísse melhor entre as delegacias.

POLÍCIA DA POLÍCIA

Além de cobrar dos policiais, Bratton contratou informantes e destacou seus melhores agentes para compor um grupo de fiscalização interna, que agia à paisana. "Por exemplo, um dos meus agentes registrava denúncia contra um oficial em uma delegacia, como se fosse um cidadão comum. Então, nós verificávamos se e como a investigação era levada adiante internamente", revela. "A mesma estratégia para apontar criminosos era usada para flagrar policiais corruptos. Não há distinção entre eles."

Bratton alerta que a corrupção intensifica o medo, intimida a população e mina a credibilidade da corporação, o que, por sua vez, reduz o apoio à polícia. "É um perigo para a sociedade que os policiais sejam vistos como incapazes e em quem não se deve confiar", diz. O corrupto dificulta o trabalho dos oficiais honestos, que acabam se corrompendo ou deixam o serviço. Em Nova York, Bratton teve o apoio do legislativo para aumentar a punição contra corruptos. Policiais flagrados eram presos e desligados.

UNIR FORÇAS

Bratton defende unificar as polícias. "No Brasil, policiais militares e civis competem entre si, não confiam um no outro, não trabalham em parceria", diz. "É disfuncional: os que investigam nunca combateram o crime na rua. Há um abismo social e de educação entre eles."

Outro problema apontado por Bratton é o tamanho da força policial e baixos salários. Em Nova York, ele aumentou em 25% o número de policiais, para 35 mil ou um para cada 230 moradores. "E contamos sempre com o FBI, em pessoal e tecnologia para investigação. No Brasil, as polícias estaduais e a federal não atuam juntas", diz.

FOCO EM ÁREAS OCUPADAS

Mesmo com policiais suficientes, Bratton admite que em metrópoles como São Paulo e Rio não é possível fazer tudo ao mesmo tempo. Nas áreas ocupadas por facções, ele começar com um projeto piloto. "Pegue uma pequena área dentro da mais violenta favela e desloque para lá seus melhores policiais, em número suficiente para garantirem a própria segurança. Aos poucos, se aproximam dos moradores e promovem mudanças na qualidade de vida. Assim, uma vizinhança por vez, vão expandido o seu espaço e ganhando a comunidade porque eles vêm melhorias onde a polícia está."

Em Caracas, na Venezuela, onde foi consultor, Bratton selecionou uma área onde havia 40 assassinatos num fim de semana e mandou 50 policiais extra para fazer o patrulhamento em scooters. "Só isso, fez o crime cair 25%", diz. "Em 40 anos de carreira, recebi muitos gestos de gratidão, mas em Caracas ganhei um beijo na testa de uma senhora que criara filhos e netos na favela. Ela repetia: gracias!"

Até seu crítico mais voraz, o economista Steven Levitt, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e autor de Freakonomics, admitiu ao The New York Times, em dezembro: se tivesse de apontar um chefe de polícia para a sua cidade, ele seria Bratton.

Nova York fechou 2009 com 5 homicídios por 100 mil habitantes. Los Angeles, com 3,8. Em SP, são 11,2 homicídios por 100 mil habitantes, ainda acima do nível considerado epidêmico pela Organização Mundial da Saúde, de 10 assassinatos por 100 mil habitantes, apesar da queda nos últimos anos.

O governador do Rio, Sérgio Cabral, reuniu-se com Bratton para negociar sua contratação como consultor em segurança para a Olimpíada de 2016. A capital carioca tem 34,2 homicídios por 100 mil habitantes. Apenas Copacabana e Laranjeiras, na zona sul, não têm níveis de violência epidêmicos.

Em SP, a Polícia Civil utiliza o sistema Ômega, que permite pesquisar informações criminais em 12 bancos de dados. Mas a ferramenta não está integrada ao sistema de outras polícias do País. Nem a Polícia Federal ou a Agência Brasileira de Informações (Abin) têm acesso aos Dados.

A unificação das polícias civis e militar é inconstitucional no Brasil. Em 2001, o então governador de São Paulo, Mário Covas, apresentou ao Congresso uma proposta de emenda à Constituição, mas a ideia foi engavetada graças ao lobby das polícias.

Em SP, há 90 mil policiais civis e militares - um para cada 455 habitantes no Estado. A Secretaria de Segurança Pública não informa quantos estão na ativa. No Rio, os PMs não chegam a 40 mil. Os números incluem pessoal em funções administrativas.

Em outubro, um helicóptero da PM foi abatido por traficantes no Morro dos Macacos, no Rio. "Crianças brincavam, jovens tocavam hip-hop e o chefe da polícia estava ali, comendo costelas assadas com eles", disse ao The New York Times o tenente Fred Booker sobre a relação de Bratton nos guetos de Los Angeles.

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