quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Os ataques na Bahia


Por Danilo Ferreira - do Blog Abordagem Policial

O leitor do Abordagem Policial já deve ter percebido que não faz parte do perfil do blog publicar notícias de mortes, assaltos, sequestros e outras tantas tragédias cotidianas que ilustram os jornais da grande mídia. Primeiro porque, como disse, a grande mídia já faz isso, e segundo porque tenho sérias reservas à mera publicação dos lamentáveis fatos envolvendo a (in)segurança em que estamos imersos nos últimos tempos. Sobram luzes sobre o sangue das vítimas desse caos, enquanto as origens e os porquês dos nossos problemas são relegados aos estudos reclusos de uns poucos acadêmicos, e aos gritos silenciosos dos que sofrem com esse dia-a-dia.

É neste viés que devemos refletir sobre a atual instabilidade que se vive na cidade de Salvador. Jornais, sites e programas de televisão especulam o número de mortes, feridos e atentados. Não que cada caso não deva ser catalogado e lamentado, mas o fato é que o absurdo já está posto. Absurdo porque estamos confundidos com cidades em guerra, como Cabul, no Afeganistão:

Salvador é Cabul?

Por uma irônica coincidência, os prints acima foram tirados no mesmo momento, e não é muito difícil confundir as fotos de Cabul (acima) e Salvador. A sensação de impotência do Estado é patente, haja vista o que afirmou, segundo o Bahia Notícias, o Secretário César Nunes, em coletiva realizada nesta terça-feira:

“[...] mesmo sabendo que a ação dos bandidos ocorreria, a cidade não poderia ficar sem policiamento. ‘Não havia como, por exemplo, colocarmos um policial em cada ônibus, mesmo sabendo do que ocorreria por meio de nossa inteligência’”

Ônibus queimados, módulos policiais metralhados, policiais sofrendo atentados. O que se sabe é que todas as ações foram articuladas pela quadrilha de um grande traficante que foi transferido para o presídio de segurança máxima do Mato Grosso do Sul. Parece que a criminalidade acompanha a tendência das grandes organizações, que replicam práticas de sucesso realizadas em outros lugares, pois não há quem não compare o que agora ocorre em Salvador com o que ocorreu, por exemplo, em São Paulo nos ataques do PCC, há pouco mais de três anos. Observando a desorganização do crime organizado, e levando em consideração a suposta organização das polícias brasileiras, perguntemo-nos com que facilidade aplicamos boas práticas de outros estados em nossas organizações. E isso vale para qualquer Estado Brasileiro.

O Valor do Policial

Recentemente, ocorreu o Movimento Polícia Legal na PMBA, onde policiais questionavam as condições ilegais a que estavam submetidos em seus empregos, reivindicando melhorias, aumento salarial, equipamentos adequados etc. Alguns conhecidos me perguntavam qual a justificativa dos PM’s realizarem a tal reivindicação, chegando a nos comparar, por exemplo, com os professores públicos, que também ganham muito pouco. Os atentatos que vitimaram policiais militares em Salvador nestes dias explicam a diferença entre policiais e demais funcionários públicos.

Não se questiona a importância do professor para a construção de uma sociedade de sucesso, mas os riscos que envolvem a profissão policial já justifica muito uma atenção especial a esses servidores - o que não vem ocorrendo a contento. O raciocínio parece desumano, mas mais desumano ainda é a constatação que temos após ele: em seu livro “O Valor do Amanhã”, o economista Eduardo Gianetti fala sobre o confronto entre “ter agora, pagar depois” versus “pagar agora, para ter mais tarde”, e como esse dualismo perpassa toda a nossa existência. Essa é a lógica dos juros - se você quer ter milhares de reais emprestados agora, deverá pagar por isso por muito tempo, na forma de juros. A pessoa que força seu joelho todos os dias jogando futebol também terá juros altos a pagar: problemas nos tendões, nas articulações…

O Governo está tendo um produto caro, de valor inestimável, à sua disposição: a vida dos policiais que se arriscam todos os dias no mais simples serviço que desempenham. Mas não paga juros por isso… O Governo é um devedor injusto, que perversamente impõe obrigações ao seu insatisfeito credor, o policial. Até quando essa relação econômica se estabelecerá, não sabemos.

* * *

Aos policiais baianos, não sugiro a adesão a qualquer clima irresponsável de cofronto gratuito, lembrando sempre que temos limitações legais, técnicas e éticas em nossas ações. Os políticos querem ver a opinião pública a seu favor, a população quer a paz devolvida, mas nós, policiais, geralmente não temos a solução para esses dois agentes sociais, e quando fazemos necessariamente o que eles desejam sem respeitar os limites citados, por eles mesmos somos condenados. Pensem nisso.

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