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terça-feira, 9 de novembro de 2010

Soluções para a redução da criminalidade e da superpolação carcerária

Por José de Jesus Filho* - Da Pastoral Carcerária

O Brasil é o quarto país no mundo em número de presos, com 494.237 presos, ficando atrás apenas dos Estados Unidos, com quase 2 milhões e 300 mil presos, China, com 1.620.000[1], e a Federação Russa, com 833.600. Porém se tomarmos somente a taxa de encarceramento, o Brasil sobe para o 47º lugar[2]. Na América Latina, El Salvador, Panamá e Chile ocupam os primeiros lugares nas taxas de encarceramento[3].

Esse quadro, porém, se altera se tomarmos individualmente alguns estados da Federação. O Estado de São Paulo já atingiu em junho de 2010 a cifra de 173.060[4] presos, cuja população geral é de 39.924.091[5], perfazendo uma taxa de encarceramento de 433 presos por cem mil habitantes. A população prisonal de São Paulo só não é maior que a dos Estados Unidos e a do México.

Embora a população prisional americana supere assustadoramente a dos demais países do globo, esse número tem permanecido estável por alguns anos. Alguns estados, como o de Nova Iorque, apresentam redução significativa de presos na última década, ladeada por importante redução da criminalidade. Expertos afirmam que a principal causa do decréscimo das taxas de criminalidade em Nova Iorque se devem ao policiamento preventivo e não ao encarceramento em massa. Com efeito, enquanto vários estados americanos continuam apostando na prisão para a incapacitação para o crime e ainda assim a violência permanece em níveis altos, Nova Iorque provou que o encarceramento em massa além de não diminuir efetivamente a violência retira do Estado as verbas que poderiam ser utilizadas com o aperfeiçoamento da polícia. Essa constatação, que faz coro aos discursos conservadores, até o momento é a única que capaz de explicar o controle do crime.[6]

Em dezembro de 2009, a população prisional de São Paulo era de 163.915[7], ou seja, em seis meses, a população prisional de São Paulo aumentou em quase 10 mil presos. Para agravar a situação, nos últimos de três anos e meio o Governo de São Paulo inaugurou apenas 2 unidades prisionais, e por outro lado não possui qualquer política universalizante de reintegração social de egressos para evitar o reingresso à prisão, o que existe são projetos pilotos que atingem um número reduzido de presos que deixam as prisões. São as chamadas boas práticas que jamais se transformam em política pública.

Com a recente Resolução SAP 219, depois parcialmente revogada pela resolução SAP 258, ambas de 2010, proibiu -se a inclusão automática de presos condenados, recapturados ou não, dos distritos policiais para o centros de detenção provisória prisionais, de modo que as delegacias de polícia começaram a se encher novamente. Se essa tendência continuar, teremos inevitalmente nos próximos meses ou anos um caos prisional com riscos inclusive de nova megarebelião. Os Centros de Detenção Provisória permanecem superlotados. Com a aceleração no aumento de número de presos, as condições prisionais tendem a piorar, a saúde no sistema prisional paulista irá se agravar com aumento de doenças infecto-contagiosas, somado ao baixo número de agentes penitenciários para efetiva custódia e controle das unidades. Os agentes penitenciários estão expostos a todos os tipos de ataques além de serem subvalorizados, com baixos salários e péssimas condições de trabalho. Enfim, podemos dizer que o sistema penitenciário paulista é um verdadeiro barril de pólvora.

Para enfrentar esse quadro, temos como proposta:

1 – Tomar a experiência de Nova Iorque como modelo de eficácia na prevenção ao crime, com especial ênfase no policiamento de rua e capacitação para abordagem que não ofenda os direitos fundamentais da pessoa.

2 – Levar ao Congresso a proposta de Lei da Segunda Chance[8]. A lei da segunda chance visa primordialmente reduzir as possibilidades de uma pessoa voltar a delinquir e voltar para o sistema prisional. Ela compreende 5 programas:

a) Ocupação transitória. A pessoa quando sai da prisão deve ter uma ocupação, um emprego, ainda que seja temporário para sentir-se valorizado e incluído na sociedade. Quem não se engaja em uma ocupação lícita, acaba seduzindo-se por ocupações ilícitas;

b) Residência temporária. Há muitas pessoas que ao sairem da prisão simplesmente não têm para onde ir, são obrigadas a viver nas ruas pois em alguns casos nem a família os quer mais;

c) Um programa de saúde. Muitos mesmo estando presos jamais superaram a dependência ao álcool e às drogas, alguns são acometidos de doenças contagiosas como hepatite e tuberculose. Sem um programa de saúde para o egresso, não há como falar em reintegração social;

d) Capacitação para o mercado de trabalho. Dada a vulnerabilidade da população prisional e o tempo em que muitos passam na prisão, muitos deixam a prisão sem qualquer qualificação para enfrentar em grau de igualdade com os demais por um emprego dígno. Fundamental um programa de educação e capacitação para concorrer a um emprego;

e) Programa de acompanhamento. O Estado deve subvencionar as organizações sociais, principalmente igrejas, para onde regressa o preso depois de cumprir a prisão, para que essas possam destacar famílias comprometidas de ajudá-lo a reintegrar-se na sociedade de forma harmônica, manter sua auto-estima em alta e sentir-se pertencente à comunidade;

3 – Valorizar o agente penitenciário, criando uma lei nacional estabelecendo um piso salarial, um plano de carreira e aumentar o efetivo nas unidades prisionais para que este possa efetivamente controlar as prisões e garantir a segurança e a ordem pública, e não permanecer mais à mercê das facções internas.



[1] Esse número não inclui presos adminstrativamente nem provisórios, os quais se incluídos, elevariam o total para 2.500.000 e a taxa para 186/100 mil.

[2] Todos as cifras são sempre estimadas, pois as fontes nem sempre fornecem informações acuradas. Se usarmos os números do Censo 2010, o Brasil ocuparia o 42º segundo lugar.

[3] Essas informações podem ser encontradas no International Centre for Prison Studies: www.klc.ac.uk

[4] http://www.aasp.org.br/aasp/imprensa/clipping/cli_noticia.asp?idnot=8632

[5] Censo 2010

[6] Cf. http://www.youtube.com/watch?v=_JsK_sDcLp8

[7] http://bit.ly/96f7IY

[8] Existe nos EUA desde 2008 uma lei chamada Second Chance Act com os mesmo propósitos.

* José de Jesus Filho, OMI, é Assessor Jurídico da Pastoral Carcerária Nacional.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Sistema Carcerário: “Isso não é um sistema. Temos um abandono de pobres”


De acordo com a Pastoral Carcerária, para cada 100 mil brasileiros livres, existem 247 encarcerados. Nos últimos 10 anos, a população carcerária mais que dobrou, levando o país se aproximar da marca de meio milhão de presos


Por Cecília Olliveira

“Temos uma política pública de encarceramento em massa”, diz o advogado da Pastoral Carcerária , José Jesus Filho, que é enfático: “Existem muitas soluções concretas. O que falta é vontade política”.

Além dos altos índices de encarceramento, denúncias de tortura e violência, altas taxas de reincidência, poder exercido pelas facções criminosas e impunidade, o que a Pastoral Carcerária classifica como ingovernabilidade do sistema de justiça, levaram a entidade a elaborar uma agenda para os próximos governos. O documento , que tem o objetivo de levantar problemas do sistema de justiça criminal e do sistema penitenciário no Brasil e sugerir propostas para os candidatos ao Executivo, aborda tópicos como o fortalecimento da defensoria pública; fim do uso abusivo da prisão provisória; gestão mais eficiente do sistema prisional; valorização da educação e do trabalho no sistema prisional; medidas para as mulheres encarceradas e egressos; efetivação do controle externo do sistema carcerário; transparência nos dados e acesso a informação; incentivo às penas alternativas; desafios da lei de drogas e valorização da justiça restaurativa.



O que tem sido feito?

“A prioridade do CNJ (Conselho Nacional de Justiça) é identificar condições subhumanas do sistema penitenciário, existência de presos em delegacias, buscar a assistência social dos presos. Há penitenciárias que são verdadeiros depósitos de gente e não um ambiente propício para recuperação”, explica o superintendente do departamento de monitoramento do sistema carcerário e conselheiro do CNJ, Walter Nunes.

A busca da assistência social aos presos e sua família, “que padece junto com a reclusão”, e que era pouco usado, também está dentre as prioridades da instituição, bem como a eficiência dos presídios, cuja função é reabilitar os presos a viver em sociedade. “Infelizmente se observa que as penitenciárias são os escritórios oficiais das organizações criminosas. Então, qual a função do sistema carcerário? Tirar as pessoas de circulação e recuperar? Isso, não serve mais para inibir crimes”, afirma Nunes, ao enfatizar que a situação é de caos. “Temos que otimizar o jurisdicional e cobrar parceiros. O executivo não acompanha a demanda. O Brasil tem compromisso com as normas da ONU e o CNJ trabalha para sensibilizar juizes a encontrar outras alternativas que não a prisão.”

Para José Filho, ainda que o CNJ se empenhe, a responsabilidade maior é do Ministério da Justiça. “As iniciativas não resolvem um problema sistêmico. Há de se melhorar a efetividade de justiça. O problema é enfrentado a luz do judiciário. Reflexo disso é que o aparelho repressor está mais bem equipado. A promoção da liberdade está precarizada”. Hoje em São Paulo existem 1843 promotores de justiça (atuam na acusação) e 500 defensores públicos. Destes, 140 atuam na defesa de presos e 50, na execução penal. “Temos ao menos que equilibrar isso”, lamenta Filho.

De acordo com dados do CNJ, atualmente o país tem cerca de 600 mil pessoas cumprindo penas alternativas e quase 500 mil presas. Destes, uma média de 70% são de jovens com idade entre 18 e 24 anos, num déficit total de 139 mil vagas no sistema carcerário do país. O programa Mutirão Carcerário, do CNJ, liberou aproximadamente 27 mil pessoas desde agosto de 2008, quando foi implantado (14% dos processos analisados).

Na ultima década, o número de encarcerados do Brasil aumentou 112% enquanto o número de habitantes do país foi da ordem de 13%. Apenas entre dezembro de 2009 e o último levantamento do MJ, feito em junho desde ano, o número de encarcerados já cresceu 4%. O número de habitantes do país cresce 1% ao ano. Já o número de brasileiros que vão para o cárcere, cresce 5 vezes mais. Nos últimos quatro anos, este número tem crescido entre 5% e 7%, enquanto que o número de habitantes não varia acima de 1%.

Situação alarmante

“O vácuo do Estado que abre precedentes para que o crime organizado capte o preso”. A frase do conselheiro vai de encontro ao conhecimento comum, e também empírico, de que o crime organizado oferece os cuidados que o Estado deveria oferecer ao cidadão, agregando mais simpatizantes e membros.

Para a Pastoral Carcerária a situação é crítica. “Temos uma política de encarceramento em massa. Um preso no sistema carcerário federal custa cerca de R$ 5 mil ao mês. A sociedade prefere gastar isso por presos que não representam risco algum, como os condenados por pequenos furtos. É um absurdo”, reverbera Jesus Filho, que finaliza: “Isso não é um sistema. Temos um abandono de pobres”.


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