Mostrando postagens com marcador ressocialização. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador ressocialização. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Caos e vergonha nos presídios brasileiros

A superlotação das casas prisionais e o aumento da criminalidade têm causado uma situação de caos generalizado no sistema penitenciário brasileiro. O local que deveria servir para ajudar na ressocialização dos detentos, tem se tornado curso intensivo para a violência. Em um país onde os apenados vivem em condições sub-humanas, amontoados em cubículos imundos e sem incentivo à educação, a ressocialização tem sido vista como uma utopia


A situação caótica e vergonhosa em que se encontra atualmente o sistema penitenciário brasileiro é a prova das consequências de um desenvolvimento histórico não planejado. Educação e cultura infelizmente nunca foram vistas como prioridade pelos governantes do país. Essa falta de incentivo e investimento em educação tem se traduzido em problemas cada vez mais graves de difícil solução, como o aumento da violência e a própria superlotação dos presídios.

A criminalidade no país aumentou consideravelmente nos últimos anos, produzindo uma demanda cada vez maior de casas prisionais. Na contramão disso, estão os agentes penitenciários e policiais, que não tiveram um crescimento proporcional em seu quadro de funcionários, além de sofrerem com precárias condições de trabalho. Mesmo com ações ostensivas da policia, a maior parte dos delitos não cessam com a detenção dos infratores, porque o sistema penitenciário atual não oferece condições mínimas de ressocialização. Ao contrário, os presídios têm servido como cursos intensivos para o aumento da violência.

A maioria dos apenados vive em condições sub-humanas, dividindo celas superlotadas com o triplo de pessoas do que elas comportam. Projetos de ressocialização, como oficinas de trabalho e cursos profissionalizantes acabam sendo relegados a segundo plano, por não ter infraestrutura básica para poder realizá-los. As salas onde deveriam ser ministrados esses cursos, têm sido utilizadas como dormitórios.

Uma população carcerária em um número cada vez maior do que o sistema pode absorver, e casas prisionais deterioradas e incompatíveis com as determinações legais para seu estado ideal de funcionamento, têm contribuído para a falência do sistema penitenciário. De acordo com o advogado, mestre e doutorando em Ciências Criminais, professor de Processo Penal da UPF, Gabriel Divan, as penitenciárias brasileiras só chegaram a esse ponto critico devido a uma histórica de falta de investimento no setor.

“Há uma demanda por maior ‘segurança pública’ que do ponto de vista de uma política populista se reflete em apenas buscar aumentar o encarceramento, enquanto medidas que procurem promover melhorias no sistema carcerário são sempre vistas como ‘investir dinheiro em bandido`. Seguimos com essa ilusão de que uma maior taxa de encarceramento acarreta simples e diretamente em ‘maior segurança’, o que não pode se faz verdadeiro, isoladamente”, disse.

O Brasil conta com meio milhão de presos, o que para um país com uma população como a nossa, é considerado um número elevado, figurando entre os países com maior população encarcerada do planeta. Conforme Divan, umas das principais causas se deve ao fato de que medidas que buscam melhorias técnicas e racionalizadas no setor, nunca são vistas politicamente com bons olhos porque, como se costuma dizer, não são uma boa “propaganda” frente ao senso comum, ou seja, “não rendem votos”.

“Um país com o tamanho do Brasil e com fatores culturais, sociais e econômicos como os nossos, necessariamente possui tendência a ter uma alta taxa de criminalidade e, em última escala, encarceramento. Mas a situação que chegou os presídios em maior parcela se deve ao descaso com o setor. Amontoamos pessoas como lixo e por elas serem chanceladas como ‘bandidos’ parte da opinião pública não vê nisso um problema dos mais graves”, explica.

Superlotação nos presídios

As más condições das penitenciárias prejudicam a própria segurança do local, e não oferecem espaço adequado para a prática da ressocialização. Segundo Divan, desde que existe pena de aprisionamento a dificuldade em ressocializar alguém também é pequena, afinal, uma prisão nunca foi um ambiente eminentemente adequado para tanto.

Para resolver esse problema, algumas medidas de urgência têm sido tomadas para diminuir o número de encarcerados. Uma delas é a de restringir a medida prisional, se possível, apenas para os casos justificadamente graves, como contou Divan: “Entrou em vigor esse ano um novo regime interessante de medidas cautelares, provisórias, que visa evitar ou pelo menos diminuir o número de prisões. O aprisionamento deve ser restrito a condenados que já esgotaram todas as possibilidades de recurso ou a acusados que comprovadamente tenham necessidade de aguardarem julgamento detidos, por algum motivo relevante. Precisamos prender menos. Isso se faz crucial para a situação dos presídios, e tem reflexos na nossa segurança diária. Em longo prazo, menos pessoas na ‘escola do crime’ que tem sede na maioria dos presídios brasileiros, significaria um menor número de pessoas para sempre atreladas a facções e a estigmatizacões.”

Novos presídios estão sendo construídos, mas muito deles já nascem superlotados, como é o caso do novo presídio de Passo Fundo. Pesquisas do Ministério Público Estadual, no ano passado, mostraram que cerca de 10% dos casos criminais chegam ao conhecimento da polícia, e poucos desses chegam até o Judiciário. Conforme Divan, o número de detentos e suas prisões não se mostram relevantes para definir uma maior ou menor "segurança" nas ruas.

“Prendemos muito e muito mal. No Brasil medidas como a da prisão preventiva (que deveria ser extremamente excepcional) são a regra e a ‘solução’ para qualquer coisa. Não podemos fazer mágica quanto a um problema como a criminalidade. Não existe solução que não seja de longo, muito longo prazo e que não envolva investimentos pesados em vários setores para tentar comprimir os números da criminalidade. Ao invés disso, tem-se, infelizmente, a ideia de que aumentar o rigor aprisionante vai resolver alguma coisa, quando na verdade apenas estufa mais o sistema carcerário e ironicamente contribui para o caos”, ressaltou.

Terceirização dos serviços

Uma ideia para solucionar os problemas dos presídios brasileiros seria a de terceirizar os serviços das penitenciárias. Conforme Divan pesquisas como as do sociólogo Loic Wacquant, nos Estados Unidos, mostraram desde a década de 90 que nos presídios "privatizados" estadunidenses houve um incremento considerável das taxas de encarceramento, ou seja, para manter os presídios era necessária uma grande demanda de detentos. A terceirização, portanto, na opinião do advogado pode acabar prejudicando ainda mais a situação de caos no sistema.

“Num primeiro momento parece sempre bom desinflar o Estado e colocar serviços nas mãos de entes privados que possuem mais capital de giro e aparelhamento de gestão mais leve, mais ágil. Do ponto de vista das instalações e da verba a ser injetada, logicamente parece uma boa experiência. Porém precisamos entender que não estamos aqui falando de telefonia móvel, por exemplo. A gestão de um presídio não pode ser vista como um ‘produto’, simplesmente. Para uma administradora/construtora de casas prisionais lucrar, deve haver mais aprisionamento e mais ‘clientes’ do sistema prisional. Não pode haver uma espécie de compromisso entre o Estado e uma administradora prisional para garantir sempre uma demanda de ‘clientela’ cada vez mais substancial”, opinou.

Ressocializar para o futuro

Na opinião do professor, o objetivo das casas prisionais é ajudar na ressocialização dos detentos, com penas sócioeducativas. Os presos deveriam ter acesso à educação, e a cursos profissionalizantes que os preparassem para o mercado de trabalho. Esse exemplo de presídio já é realidade em alguns países desenvolvidos, mas no caso do Brasil, isso soa quase que como uma utopia.

“Não acredito em ressocializar alguém em um ambiente prisional como o que existe no Brasil. Mas certamente investir em melhorias nas casas prisionais, mesmo em sua ambientação, não seria o mesmo que jogar dinheiro fora ou gastar com malfeitores. Seria um dos meios de ajudar a estancar o aumento da criminalidade. Não há como pensar em diminuir a violência em um país em que os apenados vivem em condições sub-humanas em sua maioria. Opções de estudo e treinamento profissional não são novidades na história do sistema prisional e podem ser interessantes, mas em geral vêm procurar remediar um problema que deveria ser prevenido. O investimento pesado em ressocializacão poderia iniciar muito antes e para fora dos muros da cadeia”, falou.

Por Beatriz Scariot - do Diário da Manhã

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Ressocialização de egressos: A verdadeira liberdade é ter uma segunda chance

Por Cecília Olliveira

A verdadeira liberdade é ter uma segunda chance. A frase é o mote do programa Começar de Novo, instituído pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) para promover um conjunto de ações culturais, educativas, de capacitação profissional e de inserção ao trabalho de presos e egressos do sistema penitenciário. O projeto lançou recentemente um portal que disponibiliza diversas vagas.

Com o objetivo de dar mais efetividade às leis de execução penal e mudar a realidade da situação prisional no país, o Começar de Novo foi pensado entre o CNJ e Supremo Tribunal Federal, mas chama também a sociedade e a iniciativa privada a participar. “Dê uma segunda chance para quem já pagou pelo que fez. Ignorar é fácil, ajudar é humano” é a mensagem de uma das peças.

Dentre as empresas que já assinaram acordo com o CNJ estão a Hering, que reservou 20 vagas de trabalho em sua sede, e a usina hidrelétrica Itaipu Binacional, que passou a destinar 3% dos postos de serviço para presos, egressos e cumpridores de penas alternativas.

Novas oportunidades

As portas das novas oportunidades devem se abrir ainda mais, com a participação da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp) e da Fundação Santa Cabrini. Times de futebol como Corinthians, Santos, São Paulo, Bahia e Vitória também já abriram suas instalações esportivas para serem utilizadas por jovens e adolescentes que cumprem medidas socioeducativas.

Segundo a Febraban, a percepção é de que a ressocialização é uma questão que tem de ser tratada com seriedade. A instituição está analisando as melhores opções de se engajar no projeto e pesquisando como a situação é tratada em outros países.

O CNJ tem avançado na meta de envolver a iniciativa privada no esforço de devolver a cidadania às pessoas que cometeram atos infracionais e que pagaram sua dívida com a sociedade. No Rio de Janeiro, a Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan) oferece, desde 2007, qualificação profissional a jovens e detentos com idade entre 16 e 24 anos, através do Projeto Aprendizes da Liberdade, como parte de um convênio assinado entre o CNJ, Sistema Firjan (através do Senai) e o governo do Estado.

“Iniciativas como estas são muito importantes. O Aprendizes foi pensando num determinado momento, no contexto da morte do João Hélio, um crime que envolvia a ação de menores. Em conversa com o Estado, a Firjan viu a oportunidade de colaborar com a reeducação destes adolescentes”, diz Marcos Resende, coordenador do projeto. De acordo com ele a Federação levantou dados e os apresentou aos seus associados, que aderiram em peso, ao projeto.

Os participantes do Aprendizes da Liberdade passam por módulos de Competências Básicas (Leitura e Matemática), Educação para a Cidadania (Cidadania e Ética, Relações Humanas, Meio Ambiente, Qualidade, Saúde e Segurança e Empreendedorismo) e de Qualificação nas áreas de Eletricidade Automotiva, Mecânica Automotiva ou Mecânica de Motos. A adesão é voluntária e a duração é de seis a oito meses. Durante todo o programa, os alunos também recebem acompanhamento e orientação educacional, sendo que os estudantes em regime de liberdade têm direito a transporte.

Até hoje 1545 vagas foram dispostas no banco de empregos do Começar de Novo, das quais 403 já foram preenchidas. A expectativa é que até o fim do ano, 7000 vagas sejam disponibilizadas. Já no Projeto Aprendizes da Liberdade, em 2008, 31 jovens do Degase concluíram cursos. No ano seguinte foram atendidos 42 adolescentes e 41 adultos. Até agosto mais quatro turmas concluirão os cursos, num total de 169 alunos.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Um presídio modelo exportação: 91,7% dos presos são, de fato, ressocializados


Por Roberta Trindade - Da Tribuna do Norte

Mofar atrás das grades, aplicar a Lei do Talião (olho por olho, dente por dente) ou a pena de morte para quem é condenado por um crime? As discussões são inúmeras quando entra em pauta o assunto: presos brasileiros.

Apesar de vivermos em um mundo onde quase sempre cada um pensa apenas em si, tem gente apostando na ressocialização de apenados, e o mais surpreendente é que está dando muito certo.


Presos inseridos na metodologia da Associação de Proteção e Assistência aos Condenados (APAC), no Estado de Minas Gerais estão em completa ressocialização. Estatísticas mostram que 91,7% dos presos inseridos no programa são ressocializados. Dados do Departamento Penitenciário Nacional revelam um dado assustador. No sistema comum, menos de 10% dos apenados conseguem ressocializar-se.

O método apaquiano, como é conhecido, foi criado em 1972 pelo advogado brasileiro Mário Ottoboni e difundido em diversos países. Além do Brasil, onde hoje existem 100 APACs distribuídas pelo território nacional, o método é aplicado na Alemanha, Bulgária, Cingapura, Chile, Costa Rica, Equador, El Salvador, Eslováquia, Estados Unidos, Inglaterra, País de Gales, Honduras, Letônia, República do Malauí, México, Moldávia, Namíbia, Nova Zelândia e Noruega

No próximo mês, no Rio Grande do Norte será inaugurada a primeira APAC do Nordeste que vai funcionar em Macau, região salineira. A reforma do prédio está acelerada.

A educação, assistência médica e religiosa, a proximidade da família e o trabalho têm feito os apenados acreditarem que é possível mudar de vida. Aproveitar as oportunidades pode ser uma forma de mudar o presente e programar o futuro.

Após desembargadores e juízes do RN verificarem o sucesso do sistema em Minas Gerais, com uma visão social apurada, o presidente do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Norte, Rafael Godeiro, ofereceu condições para fomentar a criação da associação no Estado.

Para a implementação da metodologia em Macau, os primeiros passos foram dados ainda no ano passado. A ideia começou a dar tão certo que o governo do RN publicou a Lei 9.273, de 24 de dezembro de 2009, criando a APAC no Estado mediante alguns requisitos, entre eles: sem fins econômicos, adotar a metodologia da associação, ser fiscalizada por juízes e ser filiada à Fraternidade Brasileira de Assistência ao Condenado - órgão consultivo da Organização das Nações Unidas (ONU).

Em Macau, a comunidade mostrou interesse em colaborar com o projeto. A construção de uma unidade é, pelo menos, 30% mais barata que as penitenciárias comuns - a mão de obra é dos próprios apenados.

Um prédio para funcionamento da APAC custa cerca de R$ 1 milhão, enquanto para a construção de presídios comuns, o valor é bem superior, ultrapassando os R$ 10 milhões. Além do baixo custo, outra vantagem é a estrutura física, que não necessita de muitos equipamentos para funcionar ou de efetivo policial.

Na APAC não trabalham agentes penitenciários, nem ao menos policiais militares. A direção da unidade é formada pela comunidade que elege um preso para presidir a Comissão de Solidariedade e Sinceridade (CSS). O presidente indica cinco presos que, juntos, resolvem 90% dos conflitos dentro da instituição.

Os custos no sistema comum chegam a mais de R$ 2 mil por mês para cada preso, enquanto que na APAC o gasto com um apenado é de R$ 500.

O preso é identificado como recuperando ou reeducando e são preparados para voltar ao convívio da sociedade. Neste método, obrigatoriamente, têm trabalho e educação para todos, aproximação com a família, com sociedade e, principalmente, estimulada a valorização da autoestima.

Em caso de fuga todos são penalizados com a perda do direito ao lazer por um mês. O apenado que fugir ou mesmo tentar, voltará a cumprir pena no sistema penitenciário comum. E este castigo ninguém quer. Na APAC, os recuperandos se ajudam, incentivando uns aos outros a não fugir e a aceitar com resignação o cumprimento da pena.

Em contrapartida, no sistema penitenciário são comuns tentativas e fugas. No Rio Grande do Norte, por exemplo, na Penitenciária Estadual de Alcaçuz, em Nísia Floresta, são tantas tentativas e fugas que é difícil contabilizar.

O modelo é liberal, mas nem tanto

De acordo com o presidente do Tribunal de Justiça, desembargador Rafael Godeiro, a Apac é um sistema muito eficiente de recuperação social dos apenados. O programa é vitorioso em Minas Gerais. “Inicialmente no RN 40 apenados serão encaminhados para Apac de Macau”. Godeiro afirma que as instalações em Macau representam um avanço para o Tribunal de Justiça do Estado.
Já o desembargador Saraiva Sobrinho, presidente do programa Novos Rumos (onde está inserida a Apac), acredita que a criação da associação em Macau representa a própria redenção da execução penal do Brasil e porque não dizer do mundo. “Queremos devolver ao convívio da sociedade novos homens ou homens novos”. Saraiva observa que as pessoas não devem se enganar: “A metodologia apaqueana fundamenta-se, sim, no emprego de disciplinas rígidas e, às vezes, até intransigentes. Não é moleza não”.
O desembargador ressalta: “Eu creio firmemente na capacidade de recuperação do homem. Se o espirito humano é capaz de um infinito aperfeiçoamento, é ele, por igual, acessível a uma recuperação sem limites”.

O juiz da central de execuções penais e medidas alternativas e coordenador do programa Novos Rumos, Gustavo Marinho Nogueira Fernandes, é um entusiasta. O magistrado critica o confinamento. Toda prisão produz tédio e para evitar que o condenado chegue neste estágio, artesanatos, aula de canto, música e o trabalho preenchem os dias dos reeducandos. “A luta maior é fazer com que eles suportem o tempo da pena”.

Gustavo Marinho diz que um ponto forte da Apac é a orientação espiritual. Não há chapa (castigo). “Se os presos fizerem algo contrário às normas da instituição são enviados para a capela onde pensam na vida, rezam e fazem reflexão”.

O magistrado afirma que a comunidade de Macau abraçou a causa e está completamente envolvida com o método. O Lions Clube, a maçonaria e a classe empresarial também apoiam o projeto. “Estaremos trabalhando em toda aquela região. Pendências, Guamaré, Alto do Rodrigues e João Câmara”.

Gustavo lembra que os reeducandos do regime fechado têm trabalho certo. Ou, estão exercendo funções em oficinas internas ou em obras públicas externas. “Na penitenciária de Itaúna (MG) não há muros. Isso é surreal”.

Há vertentes que apontam a metodologia apaqueana como bem mais rígida que o sistema penitenciário comum.
Há horário para tudo. Fazer a barba, trabalhar, estudar, comer, dormir, falar com a família por telefone. Os reeducandos têm o direito, uma vez por semana, de conversar por meio de um telefone com parentes. “Ninguém passa a mão na cabeça de ninguém. Tem que trabalhar mesmo”.

A Apac é uma associação civil que depende de doações. Quem quiser colaborar (é descontado no imposto de renda) pode fazer o depósito no Banco do Brasil. Agência 0477-4, conta número 26721-x

”Estou preso pela minha consciência”

Com a fala mansa e com respostas precisas, de longe, o rapaz que conversa ao telefone não parece ser um homem condenado há seis anos de reclusão em regime fechado. Eberson Lobato de Brito da Silva, que tem apenas 24 anos, concedeu entrevista exclusiva à TRIBUNA DO NORTE. Ele está há cinco meses na Apac de Minas Gerais e é um dos quatro presos do Rio Grande do Norte encaminhados para aquele Estado para conhecer o programa e ajudar na sua execução aqui no RN.

A vida de Eberson poderia ter sido bem diferente. Assim como tantos outros jovens brasileiros, ele não aceitou os conselhos dos pais. E aos 19 anos ingressou no mundo do crime. Era traficante, comercializava maconha e crack. Preso por tráfico de drogas em Macau foi condenado pela justiça .

Detido inicialmente na delegacia de Macau foi convidado para seguir para Minas Gerais. Diante do caos que vivia dentro da unidade policial e sem perspectivas de vida, de pronto aceito a proposta.

Com a mente aberta para novos conhecimentos, Eberson agora trabalha todas as noites. É responsável pela galeria noturna – tranca as grades e as portas da unidade. E pasmem, as chaves da instituição ficam nas mãos do recuperando, durante toda a madrugada. Isso significa que a hora que quiser, ele pode fugir e colaborar para que outros fujam também. “Estou preso pela minha consciência”, diz.

O homem que deve cumprir ainda quatro anos e oito meses de pena, afirma que na unidade não há policiais, a alimentação quem faz é o próprio recuperando. É fornecido remédio para quem fica doente, há dentista e psicólogo, o local é limpo e o melhor: “É a gente que cuida da gente”, enfatiza.
Eberson conta que confia em Deus e que tem muita fé. “Estou muito bem aqui e me recuperando. Quero mudar e estão me dando oportunidade para isso. Sou pai de um menino de cinco anos e não desejo isso para ele. Vou ser exemplo de superação”.
E a mudança chega rapidamente, “Nunca gostei muito de leitura, mas aqui já li um livro e vou ler outros. Temos uma biblioteca”.
Do passado, quer distância. O reeducando acredita que se estivesse na delegacia de Macau (que chegou a ser interdita este ano pelo excesso de presos), provavelmente estaria inserido no mundo do crime (mesmo atrás das grades) sem oportunidade de ressocialização. “Mesmo que quisesse, lá ninguém tem oportunidade. É o tempo todo na tranca, 24 por 48 horas”.

A superlotação, a alimentação horrível, a disputa de vaga para esticar o corpo (dormir), são alguns dos fatores apontados pelo recuperando. Eberson diz que também foi espancado por policiais. Estes são problemas visíveis aos olhos no sistema penitenciário do Rio Grande do Norte e que o jovem quer passar uma borracha e apagar as lembranças ruins.
Ele que não acreditava em ressocialização, assim que cumprir a pena quer ser mototáxista. “Tenho uma motinha; vou trabalhar, sustentar minha família e educar meu filho para ser um homem digno”.

Além de Eberson, outros três presos do RN estão em Minas Gerais: Francisco Antônio Max Neto, 25, condenado a quatro anos e quatro meses por tráfico de drogas; Francisco Cláudio Cardos da Silva, 35, condenado a 13 anos por homicídio, e Francisco Maxwell Dantas da Silva, 34, condenado a 37 anos de reclusão. Maxwell tem vários processos contra ele e teve as penas unificadas. Entre os crimes: roubo e tráfico de drogas.

Valorização humana é a base do método

Mário Ottoboni é advogado e jornalista e criou o método com o objetivo de amenizar os problemas enfrentados, naquela época, no presídio de São José dos Campos, no Estado de São Paulo. A unidade prisional passava por uma situação extremamente complicada. “Com o apoio de alguns amigos estudei uma forma para sair do sistema comum. Não poderia repetir nada que estivesse sendo colocado em prática no sistema comum, e deu certo”.

Com uma ideia na cabeça e muita boa vontade, segundo Ottoboni, um ano depois, o advogado viu o projeto ganhando vida. “Um juiz da Vara de Execuções Penais que pensava assim como eu, em punir e recuperar, nos ajudou. Foi surpreendente o resultado e de repente começou a se espalhar pelo Brasil e pelo mundo”.

Ottoboni conta que nas Apacs não há rebelião, mortes, fugas em massa. O preso passa a ser um grande colaborador. “Nós entregamos a chave do presídio para ele e sempre o resultado é positivo. A base do método é a valorização humana”
O criador das Apacs enfatiza que por meio do método apaquiano é dado ao preso funções para que ele cuide da segurança, inclusive para não entrar drogas na unidade prisional.

Questionado se ele acreditava que a ideia iria fluir tão bem e seguir tão longe, Ottoboni diz que, sinceramente, não imaginava que seria difundida no mundo todo. “Eu queria resolver o problema da minha cidade, mas após algum tempo, pessoas do mundo todo começaram a visitar a Apac de São José dos Campos”.

Ottoboni afirma que a ideia na cabeça e muita fé no coração fizeram a diferença. “O método foi divulgado até na Europa e na Ásia. Eu acredito em recuperação e muita gente também”.

O advogado e jornalista conta que em um congresso realizado em Minas Gerais sobre as Apacs, ouviu a seguinte frase: “O fato mais importante que está acontecendo no mundo, em matéria prisional, é o movimento das Apacs no Brasil”. A declaração foi de Ron Nickkel, diretor executivo da Prison Fellowship Internacional (PFI) – órgão consultivo da Organização das Nações Unidas para assuntos penitenciários.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Ressocialização: MG paga R$ 1 mil por preso ou ex-detento contratado


Do Uol

A contratação de um detento ou ex-detento vale dois salários mínimos mensais (R$ 1.020, para custeio do salário e encargos) para as empresas mineiras. Esse é o valor que passa a ser pago pelo governo de Minas Gerais para a contratação de cada egresso. O Estado é o primeiro a transformar em lei um projeto de subvenção econômica para estimular a reinserção de pessoas que já cumpriram as penas ou estão em liberdade condicional.

"Não é suficiente trabalhar na capacitação, é preciso encontrar mecanismos para quebrar o preconceito instalado na sociedade", diz Maurilio Pedrosa, secretário executivo do Instituto Minas Pela Paz, responsável pela coordenação do programa local, batizado de Regresso. A lei foi sancionada em setembro e começa agora a ser colocada em prática.

Pelo menos mais 30 projetos de lei para estimular a contratação de ex-presidiários estão emperrados em câmaras municipais, assembleias e na Câmara dos Deputados. Com base em diferentes formas de incentivo fiscal, os projetos esbarraram em obstáculos burocráticos e administrativos, como a necessidade de obter aprovação do Conselho Nacional de Política Fazendária.

Para especialistas, o principal avanço da proposta mineira é garantir recursos do orçamento governamental. O modelo poderá ser copiado por outros Estados. O secretário paulista de Emprego e Relações do Trabalho, Guilherme Afif Domingos, já esteve em Minas para conhecer em detalhes a proposta.

Para ter direito à subvenção econômica, as empresas de Minas precisam estar em dia com os tributos estaduais e cadastradas no instituto. O número de egressos que serão custeados pelo Estado, para cada empresa, varia de 1 a 20.

Companhias com até 20 empregados podem contar com a subvenção para a contratação de um detento. As com mais de 500 funcionários poderão receber subvenção para contratar número equivalente a 5% do total. O benefício será pago por até 24 meses. Os recursos só podem ser aplicados para pagamentos dos salários e encargos com detentos. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Ressocialização atende 60% dos detentos em presídio de Caruaru


Do CNJ

Na Penitenciária Juiz Plácido de Souza, em Caruaru, agreste pernambucano, que abriga uma quantidade de presos 10 vezes superior à capacidade, um projeto de ressocialização está levando uma nova perspectiva de vida aos detentos. Atualmente, 990 pessoas cumprem pena na unidade, dos quais cerca de 60% participam de algum tipo de atividade, como cursos, produção de artesanato, confecção de roupas, prática esportiva, entre outras tantas oferecidas pela unidade, que tem capacidade para abrigar apenas 98 pessoas. "Dentro dos presídios existe um potencial criativo e produtivo que precisa ser explorado", destaca a diretora da unidade e coordenadora do projeto Cirlene Rocha.

À frente da administração da penitenciária há sete anos, Cirlene conta que a participação nas atividades, além de motivar os detentos, contribui para reinseri-los na sociedade e no mercado de trabalho. "Nosso objetivo é que a sociedade veja esse potencial para que essas pessoas consigam entrar no mercado de trabalho e construir uma nova vida lá fora". Na unidade, eles trabalham nas áreas mais diversas, como produção de roupas, marcenaria, reciclagem, entre muitas outras. Por mês, cerca de 16 mil peças de roupa são produzidas dentro do presídio. Todo o projeto é possível com a colaboração de colaboradores locais, empresários, faculdades e da prefeitura da cidade.

"Você encontra todo tipo de profissional dentro da prisão e aqui incentivamos que uns aprendam com os outros", observa a diretora. O incentivo faz com que muitos tomem iniciativa e montem suas próprias empresas dentro da unidade. Ela conta que alguns, com o apoio da família que ajudou com as máquinas, montaram sua própria confecção. Também está em desenvolvimento uma empresa de comunicação, montada pelos próprios detentos, que fará produção de materiais de divulgação. Trabalhos de marcenaria, para a produção e manutenção de móveis da penitenciária e confecção de artesanato típico e bolsas de embalagem são outras das atividades desenvolvidas pelos presos.

Educação - Além do trabalho, no presídio, 460 detentos participam de cursos de alfabetização, capacitação profissional e ensino supletivo. A leitura é incentivada pelo programa, assim como a prática de esportes. Aulas de capoeira, boxe, entre outras modalidades, são ministradas dentro da unidade. Até CD musical já foi produzido pela banda formada no presídio por detentos e agentes penitenciários. Em novembro, o grupo lançou o CD "Tom da Liberdade", com 12 músicas no estilo romântico, compostas pelos integrantes. As canções contam historias vividas por eles, dentro e fora do sistema penitenciário, e o projeto foi patrocinado por um ex-presidiário. O resultado foi tão bom que agora eles estão finalizando a produção de um DVD.

Advocacia Voluntária - Na última semana, o presidente do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), ministro Gilmar Mendes, assinou, em Recife, um acordo de cooperação com a Faculdade do Vale do Ipojuca e a Secretaria Executiva de Ressocialização do Estado de Pernambuco para a instalação de um Núcleo de Advocacia Voluntária na Penitenciária Juiz Plácido de Souza, em Caruaru. O programa do CNJ em parceria com universidades oferece assessoria jurídica gratuita a presos que não têm condições de pagar um advogado. Em Caruaru, a faculdade também prestará serviços nas áreas de psicologia, assistência social e comunicação.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Juiz suspende saída temporária de presos em Recife


Do Conjur

Todos os detentos em regime semiaberto das unidades prisionais do Recife e Região Metropolitana terão suas saídas temporárias suspensas durante o período de 12 a 20 de fevereiro. A decisão é do juiz Adeildo Nunes, titular da 1ª Vara de Execuções Penais e Corregedoria de Presídios.

Na terça-feira (26/1), ele assinou a Instrução de Serviço para determinar a suspensão em razão do período carnavalesco comprometer o funcionamento normal dos estabelecimentos comerciais, industriais e de serviços. A determinação também se refere às autorizações de trabalho externo dos apenados no período de 13 a 17 de fevereiro.

O juiz ressaltou que a saída temporária é essencial para a ressocialização do preso. Para ele, o convívio familiar e empregatício prepara o retorno à liberdade, e este período prejudica esse processo. “Essa instrução teve como base a data do carnaval, que tanto prejudica os estabelecimentos de trabalho quanto o convívio efetivo com familiares”, explicou Adeildo Nunes. Com informações da Assessoria de Imprensa do Poder Judiciário de Pernambuco.

Instrução de Serviço nº 001/2010

sábado, 23 de janeiro de 2010

O ladrão que deu adeus ao crime


Um dos principais ladrões de carros dos anos 70 e 80 agora vive em paz com a sua consciência

Nilson Mariano - do Zero Hora

O caminho do mal tem volta? Bandidos costumam ser incorrigíveis, acabam na cadeia ou no cemitério, mas um deles provou que é possível se regenerar. Na série em que reencontra personagens dos seus 46 anos, ZH conta como vive Fanor da Rosa, um dos principais ladrões de carros dos anos 70 e 80 e agora em paz com a sua consciência.


Fanor Lemos da Rosa caminha penosamente, como se as pernas estivessem chumbadas, apalpa o piso irregular da rua com as muletas, que se movem rente aos pés, cada passo arrastado é uma vitória. Sob o sol de janeiro, o único refrigério vem da brisa do mar. O esforço o exaure, mas ele não pede para descansar na cadeira dobrável que a mulher transporta ao lado. É um teimoso, sempre foi.

Aos 79 anos, o trôpego Fanor convalesce de um acidente vascular cerebral (AVC), sofrido no inverno de 2008, que o paralisou na cama por quase um ano. Não mexia mãos nem pernas, nem sequer a ponta dos dedos, mas jamais esmoreceu. Afinal, já se recuperou de algo igualmente tenebroso: era ladrão de carros.

E dos mais procurados da história policial gaúcha. Do fim da década de 60 até o início dos anos 90, jornais divulgaram seus furtos. Era o mestre da gazua (o ferrinho curvo de violar fechaduras), tinha predileção por “fusquinhas”. Chegou a ser apanhado no Paraná, rumo ao Paraguai numa Elba. Manchetes destacavam que teria levado mais de mil automóveis.

Filho de agricultores de Taquari, criado sob a severidade dos padrões rurais, Fanor ingressou nos subterrâneos do crime em 1968. Como era um bandido diferente – assegura que não agia armado e não machucava suas vítimas –, ganhou o apelido de Bom Ladrão. Tinha até um código de atuação próprio:

- Não usar revólver.
- Não ter parceiros.
- Não consumir drogas.
- Só levar carros desocupados.

E assim Opalas, Fuscas, Corcéis e Brasílias, mais Variants, Chevettes, Mavericks e outros bólidos foram surrupiados, para desespero dos seus donos. Hoje um bisavô, o corpo ainda travado pelo AVC, mas o cérebro vivaz, Fanor explica por que virou ladrão:

– Foi de gaiato, de bobo, de metido. Não precisava.

Não foi cumprindo penas nas cadeias que Fanor se regenerou. Ele deve a conversão à atual mulher, Eva, 69 anos. Os dois se conheceram em 1962, ela caiu de amores pelo seu primeiro namorado. Como sofria com as estripulias do mulherengo Fanor, cedeu a um conselho da mãe:

– Não te mete com um homem desses, nunca se ajeitam...

Eva casou-se com outro, teve cinco filhos, queria a estabilidade de uma casa guarnecida por cerquinha branca, roupas no varal, um cachorro abanando o rabo, flores para regar. Mas as brasas da antiga paixão não se extinguiram. Quinze anos depois da separação, ao ler em Zero Hora sobre mais uma prisão de Fanor, largou o marido e correu para a Penitenciária Estadual do Jacuí (PEJ), em Charqueadas. A emoção do reencontro balançou as grades.

– Eu tremia, ele tremia – lembra Eva.

Pela regeneração, vale até apelo ao céu

A mulher supôs que o cárcere, um tiro sofrido na coxa e as perseguições haviam amaciado Fanor. Então começou a puxá-lo para o lado do bem. Cumulou-o de afagos, mas também pediu ajuda ao sobrenatural. Umbandista, fez encomendas para a Mãe Oxum, sua protetora, e a Iemanjá.

– Precisava domar a fera – conta.

Nos anos 80, Fanor despediu-se da bandidagem. Pelos registros da Superintendência dos Serviços Penitenciários (Susepe), terminou de pagar a dívida com a Justiça em 1996, ao deixar o regime semiaberto. Há cinco anos, decidiu morar num pequeno balneário gaúcho, em busca do sossego que só o anonimato pode oferecer.

O casal vive na companhia de três cachorras e de um papagaio falastrão, que chama Fanor de “Nego”, imitando o tratamento carinhoso dispensado por Eva. Na parede da sala, o retrato que selou a união: a filha arquiteta, atualmente na Alemanha.

Eva e Fanor relutaram dar entrevista, temem perder a paz finalmente alcançada. Um dos motivos para se manifestar é apresentar sua versão. Ele jura que não furtou mais de mil veículos, como alardearam os jornais, baseados em informações da polícia. Assume a parte que lhe cabe, mas não o que penduraram indevidamente na conta:

– Pois é, tinha que dar risada disso. Como é que ia dar tempo de levar tanto carro? Não tem cabimento.

Três vezes por semana, durante 40 minutos, Fanor caminha na frente de casa para se recompor do AVC. Vai e vem, como um caracol, escoltado por Eva, seu anjo da guarda. Na volta da terapia, molhado de suor, senta-se na varanda e faz uma recomendação a quem se candidata à delinquência:

– Que não entrem, não se metam. A cadeia é a maior escola, a maior tristeza.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Relatório mostra novas formas de ressocializar presos


Por Gláucia Milício - Do Conjur

O Ministério da Justiça, por meio do Departamento Penitenciário Nacional (Depen), fez uma radiografia para identificar as boas práticas criadas e aplicadas no sistema penitenciário brasileiro. Do Oiapoque ao Chuí, todas têm como denominador comum a preocupação com a reintegração social do preso. No Amazonas, por exemplo, chama atenção o projeto de liberação de créditos financeiros a egressos do sistema penitenciário. O projeto consiste na habilitação de egressos e de seus familiares para obter empréstimo, por meio da Agência de Fomento do Estado do Amazonas (Afeam). Os créditos variam de R$ 5 mil a R$ 15 mil e têm como objetivo ajudar na abertura de pequenos negócios. Segundo dados do relatório do Ministério da Justiça, não existe, no país, nenhuma outra medida semelhante.

Outra prática aplaudida é a parceria que a penitenciária feminina da Bahia fez com a Fundação Dom Avelar Brandão Vilela, que pertence à Arquidiocese de São Salvador da Bahia. Juntas, uniram forças para construírem uma creche próxima ao complexo penitenciário, onde são atendidos 145 filhos de detentas em regime de internato e semi-internato. As crianças a partir do sexto mês de idade são levadas para a creche e passam a encontrar suas mães em dias de visita.

Em Minas Gerais, o programa da universidade Uniube, de Uberaba, também merece destaque. Ele é focado em curso de formação de tecnólogos na área de sulcroalcooleiro, com período de duração de três anos. O curso é proporcionado a partir de uma bolsa dada ao detento e oferecida em várias unidades penitenciárias do estado.

Em São Paulo, as práticas vão de ações para aumentar a auto-estima da mulher presa, como o concurso Plantando Sementes, que escolhe a detenta mais bonita, a mais simpática e a que tem a melhor redação, até curso de línguas e cultivo de horta. A prática mais voltada para a inserção do preso no mercado de trabalho está no interior de São Paulo, em Mococa. Lá no presídio, os presos são preparados para prestar prestar vestibular. O programa é destinado aos presos de regime semiaberto. A Penitenciária II de Sorocaba também tem uma parceria com a Universidade Paulista (Unip) para novo aprendizado por meio de oficinas, teatro e laborterapia.

No quesito educação, vale destacar que o Espírito Santo, estado criticado por manter presos em contêineres, é o que mais tem presos em sala de aula. A informação é do Ministério da Educação. No estado, 21,79% do total de detentos estudam. O índice capixaba supera o percentual do país, que é de 17,3%. O estado é seguido por Pernambuco, com 18%, e Rio de Janeiro, com 16,44%.

O MEC teve como parâmetro dados do Ministério da Justiça e do Departamento Penitenciário Nacional (Depen). Atualmente, mais de 1,1 mil internos do sistema prisional capixaba frequentam as salas de aula, que funcionam em 16 das 25 unidades prisionais do estado. O programa educacional Portas Abertas para a Educação, que leva a educação para as prisões do estado, foi instituído em junho de 2005. Enquanto isso, no Rio de Janeiro, três unidades prisionais (Esmeraldino Bandeira, Serrano Neves e Talavera Bruce) oferecem cursos pré-vestibular.

Para os detentos do Rio Grande do Norte, trabalho é sinônimo de renascimento. O estado tem servido de exemplo para o país na ressocialização de detentos. Recentemente os apenados do estado ganharam mais uma ferramenta de integração com a sociedade, o projeto Reciclar e Renascer, implantado na Penitenciária Estadual de Alcaçuz, em Nísia Floresta. Os presos trabalham no remanufaturamento de cartuchos, toners e tintas.

Clique aqui para ver todas as práticas.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Projeto prioriza qualificação de adolescentes egressos de abrigos


Da Agência Câmara

A Câmara analisa o Projeto de Lei 5709/09, da deputada Solange Almeida (PMDB-RJ), que inclui adolescentes egressos de abrigos entre os clientes prioritários do Programa Nacional de Inclusão de Jovens, na modalidade Projovem Trabalhador.

De acordo com o texto, os jovens beneficiados pela proposta deverão receber auxílio financeiro no valor de R$ 100,00, por um período de 18 meses, que deverá ser custeado pela União.

O Projovem Trabalhador é um programa do governo federal que beneficia jovens entre 15 e 29 anos de idade que estejam em situação de desemprego e sejam membros de famílias com renda mensal per capita de até um salário mínimo (R$ 510,00).

Reintegração e qualificação

A autora da proposta argumenta que é preciso promover a reintegração, a qualificação profissional e o desenvolvimento humano dos jovens que atingem a idade máxima de permanência em abrigos, uma das medidas de proteção previstas no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA - Lei 8.069/90).

Os abrigos destinam-se a crianças e adolescentes que não estão sob proteção familiar, em razão da morte dos pais ou por abandono, por causa de maus-tratos, violência física ou psicológica. O abrigo tem sempre caráter provisório, pois o objetivo último é o retorno à família de origem, no menor prazo possível.

Tramitação

O projeto, que tramita em caráter conclusivo, será analisado pelas Comissões de Trabalho, de Administração e Serviço Público; de Seguridade Social e Família; de Finanças e Tributação; e de Constituição e Justiça e de Cidadania.

Íntegra da proposta:

* PL-5709/2009

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Adolescente privado de liberdade poderá ter direito de voto


Da Agência Câmara

Tramita na Câmara o Projeto de Lei 5749/09, do deputado Carlos Bezerra (PMDB-MT), que garante o direito de voto para adolescentes privados de liberdade. Segundo o texto, eles poderão cadastrar-se como eleitores e votar nas eleições, observada a idade mínima de 16 anos requerida para o voto facultativo.

A proposta acrescenta a medida ao Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei 8.069/90), na parte que trata dos direitos do menor de idade internado.

O projeto estabelece ainda que a direção do estabelecimento de internação encaminhe à Justiça Eleitoral, com antecedência mínima de 180 dias da data da eleição, a lista de internos eleitores, com o nome, a idade, a duração da medida socioeducativa, o endereço e a situação eleitoral de cada um. Essa lista incluirá também os internos com 18 anos ou mais que cumpram medidas privativas de liberdade no estabelecimento.

Regras para votação

De posse da lista, a Justiça Eleitoral decidirá pelo transporte dos adolescentes aos locais de votação ou pela instalação de urna eletrônica no estabelecimento de internação. Em qualquer caso, deverão ser observadas as condições de segurança de todos os envolvidos no processo eleitoral.

Caberá ao Tribunal Regional Eleitoral (TRE) adotar as medidas necessárias para assegurar ao interno o direito de se inscrever no cadastro eleitoral e de exercer o direito de voto. Além disso, o TRE publicará, em até 90 dias após as eleições, relatório estatístico da participação de adolescentes nas eleições.

Segundo o projeto, a não adoção de medidas para viabilizar o voto desses internos constituirá infração funcional grave, cabendo representação ao Conselho Nacional de Justiça.

Cidadania

Carlos Bezerra reclama que direitos consagrados na Constituição e no Estatuto da
Criança e do Adolescente não vêm sendo observados pelo Estado brasileiro, como o direito ao voto dos cidadãos com 16 anos ou mais.

O deputado observa que não há restrição a esse direito para os adolescentes internos, uma vez que são presos provisórios. A cidadania, segundo Bezerra, é fundamental para que o jovem sinta que pertence à sociedade.

"Grande parte desses adolescentes sequer conhece o seu direito de votar a partir dos 16 anos. Trata-se de uma oportunidade perdida com vistas à reeducação e reintegração social", afirma.

Tramitação

O projeto será analisado pelas comissões de Seguridade Social e Família; e de Constituição e Justiça e de Cidadania. Depois será votado pelo Plenário.
Íntegra da proposta:

* PL-5749/2009

domingo, 3 de janeiro de 2010

Mulher põe ordem em presídio com mais de 900 detentos em Caruaru

Nos sete anos em que Cirlene Rocha esteve à frente do presídio em Caruaru, não houve assassinatos, rebeliões ou incidentes graves.

Do Globo.com

Vaidosa, mulata, bonita e de fala mansa, decidida, jovem, corajosa, mãe, advogada, ex-agente penitenciária e diretora de um presídio.Cirlene Rocha manda e todos obedecem. Consegue manter mais de 900 homens na linha. Quem desobedecer a uma ordem dela, vai para solitária.

Até os inimigos declarados, presos de quadrilhas rivais, dormem na mesma cela e convivem sem violência dentro do presídio.




“Aqui na penitenciária Plácido de Souza eu não quero problema. Todos têm que ser amigos.Aqui não é ambiente de guerra, é ambiente de paz. Sempre tem um que matou a irmã do outro, ou um caso de um bandido que estuprou a mulher de outro. Todos os casos que você imaginar existem aqui na cadeia. Mas se um preso olhar de cara feia para o outro, é punição para os dois”, avisa Cirlene.

E a maior punição lá não é ficar isolado na solitária, é mudar de prisão. A penitenciária de Caruaru tem capacidade para 98 presos, mas atualmente está com uma superlotação de 921. Mesmo assim, nos últimos sete anos, não houve nenhuma rebelião por lá.

Nenhum assassinato, nem conflitos graves aconteceram nos sete anos em que Cirlene é a diretora da penitenciária. Ela anda livremente pelos corredores da prisão, entra nas celas, conversa com os presos sem nenhum tipo de segurança. Aliás, a polícia fica fora do presídio.

“Há uma conscientização do grupo de escolher se quer um ambiente de paz ou de guerra. E eles querem um ambiente de paz. Eles não são bestas de quererem um ambiente de guerra porque as famílias dos presos ficam muito angustiadas.Quando um bandido fica preso em Caruaru, a família fica mais tranqüila”, avisa Cirlene.

Tesouras, ferramentas e até navalhas são usadas no trabalho dos presos, mas nunca são aproveitadas como armas.

“Um preso fiscaliza o outro”, diz Cirlene.

O barbeiro Ronaldo Luciano deixa a navalha sobre a mesa, mas ela só é usada no corte de cabelo do preso.

“O meu interesse é aprender a minha profissão e poder ajudar a minha família”, explica.

As divergências são resolvidas nas mesas de sinuca ou nos jogos de dama. Na quadra, eles jogam futsal e praticam capoeira. Há uma equipe de professores de educação física e um convênio com a prefeitura que incentiva a prática de esportes.

Nas salas de aula, os presos são alfabetizados e aprendem o básico em educação. Alguns deles nunca tinham freqüentado uma escola.

Uma capela foi construída dentro da penitenciária onde são realizados cultos religiosos e ensaios do coral. A padaria produz 3,5 mil pães por dia para o consumo interno.

Cada espaço dentro da penitenciária, que tem uma área de um quarteirão na zona urbana de Caruaru, é aproveitada. Eles produzem lá 16 mil peças de roupa por mês. E os presos estão se especializando em artesanato. A arte do barro é uma tradição naquela região do Nordeste. As bonecas vão ser vendidas na feira de Caruaru.

A rádio Fênix é um sistema de rádio que é ouvido em todas as dependências do presídio. Tudo mantido pelos presos.

“Eles têm que ter responsabilidade. Eu falo isso para eles que ninguém tem nada de graça. Eles têm que conquistar com os próprios méritos. Quando eles chegam, são todos iguais. Não quero saber o que eles cometeram lá fora e nem a vida pregressa deles em outras unidades prisionais. Aqui começa do zero”, avisa Cirlene.

Falou a xerife do agreste, a mulher que mudou o conceito de mandar nos homens por mais perigosos que sejam.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Os municípios e o ECA

Do Estadão

Responsável pela administração de 190 unidades de atendimento e internação de adolescentes em situação de risco e em conflito com a lei, a Fundação Casa, vinculada ao governo estadual, vai repassar suas atividades às prefeituras, a partir da virada do ano. Ao todo, 10 mil jovens serão atingidos pela decisão do governo estadual de deixar de responder pelo atendimento direto, entregando essa tarefa aos municípios. A medida é prevista pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que entrou em vigor em 1990 e foi especialmente concebido para substituir o caráter punitivo do antigo Código de Menores por programas socioeducativos implementados pelos Estados e municípios.

Em vez de aplicar sanções penais a jovens infratores, recolhendo-os às degradadas e superlotadas unidades de internação, como as da antiga Febem, o ECA prevê a "liberdade assistida", permitindo-lhes viver com os pais. Na filosofia do Estatuto, a convivência familiar, o envolvimento da comunidade e a oferta de serviços por parte do poder público são decisivos para recuperar jovens problemáticos, assegurando sua inclusão social. Quanto mais personalizado for o tratamento que receberem, mais condições terão de abandonar o crime.

Por isso, a municipalização do atendimento de jovens em situação de risco e conflito com a lei sempre foi apontada pelos defensores do ECA como condição necessária ? mas não suficiente ? para a substituição do velho modelo da Febem. "Cada município, dentro dos parâmetros das políticas públicas estabelecidas, e de modo integrado com os demais atores, deve definir seu sistema de atendimento", diz Luís Fernando Barros Vidal, presidente da Associação Juízes para a Democracia. "Governos locais têm mais capacidade de identificar vulnerabilidades dentro de comunidades e realizar ações sociais paralelamente ao acompanhamento do infrator. Se um garoto precisa de um abrigo, as prefeituras podem providenciá-lo mais facilmente, pois isso é de sua competência", diz Adilson de Souza, assessor da Fundação Casa.

Além de contribuir para a redução dos índices de violência urbana e para a reinserção social de jovens problemáticos, essa estratégia propicia uma significativa economia de recursos para o poder público. Segundo dados do governo paulista, o gasto médio com cada jovem beneficiado pela "liberdade assistida" é de R$ 100 mensais, enquanto o custo de cada internado é de R$ 3 mil.

A municipalização é mais barata e mais eficiente. O que levou à implementação dessa política em São Paulo com um atraso de quase duas décadas foi a falta de infraestrutura da maioria das prefeituras. Para tentar resolver esse problema, a Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social vai destinar às prefeituras paulistas um total de R$ 16,6 milhões, em cotas que serão definidas conforme o porte do município e o modelo de gestão adotado. Algumas prefeituras terceirizaram as atividades socioeducativas, deixando-as a cargo de "instituições parceiras", como ONGs e entidades comunitárias, enquanto outras optaram por criar núcleos próprios de atendimento. Em muitos municípios, as ações sociais são realizadas por órgãos locais e estaduais. A intenção do governo paulista é levar os governos municipais a realizar esse trabalho sozinhos, com repasses federais e estaduais. Na capital, onde prevalece o sistema de parcerias, a Prefeitura já reconheceu que não terá condições de assumir o serviço de supervisão e atendimento direto em menos de dois anos.

A iniciativa é importante mas, segundo os especialistas, só dará certo se não houver atraso nos repasses e se os serviços de assistência socioeducativa forem eficientemente executados. "Não pode haver descontinuidade, pois interrupções e alterações de qualidade do atendimento têm graves reflexos no cotidiano da garotada", diz o juiz Barros Vidal, depois de lembrar que "não pode haver prazo para que o Estado se retire de cena nem disputas de responsabilidades por erros e fracassos entre as esferas de governo".

O grande desafio dessa política, cujo êxito é condição básica para a melhoria da segurança pública, está na forma como ela será adotada pelo Estado e pelos municípios. Qualquer falha de articulação pode resultar no aumento da violência urbana e isso é reconhecido pelas autoridades estaduais.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Ensino e aprendizagem na penitenciária


Por Cecília Olliveira

“Chamamos o aluno pelo nome e sobrenome, pra reforçar a identidade. São pessoas”. A frase, da Coordenadora pedagógica da escola penitenciária Major Eldo Sá Correa, Creuza Ribeiro,t raduz bem oem que se baseia o ensino e aprendizagem na peninteciária.

“Tentamos trabalhar o mais próximo do currículo normal, pra que eles acompanhem o conteúdo e estejam aptos a acompanhar uma escola regular”, explica a coordenadora.

Um dos alunos, Emerson Almeida Salomão, valoriza a iniciativa. “Ter a oportunidade de estudar é muito valoroso. Quero fazer o Enem e faculdade de letras ou administração”, explica ele, que enaltece a iniciativa também pela preocupação além dos estudos. “Os professores se preocupam com a gente. Se faltamos, eles vão atrás saber o que aconteceu”, diz.

Gratidão

Lúcia Justino, professora de História, fala de seus alunos e ex-alunos e se mostra feliz com o progresso deles. “Educação é fundamental pra quando eles saírem daqui”, afirma. Ela conta sobre o depoimento de um aluno: “Professora, graças a vocês eu não tenho mais coragem de fazer coisa errada e não me sinto mais atraído pelo crime”. “Isso é maravilhoso”, relata com alegria a professora.


Veja o vídeo abaixo


quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Penitenciária mineira terá seção eleitoral

A penitenciária de segurança máxima Nelson Hungria, em Contagem, terá seção eleitoral especial nas eleições de 2010. Atendendo a um requerimento do deputado estadual Ademir Lucas (PSDB) apresentado na Comissão de Assuntos Municipais e Regionalização da Assembleia Legislativa de Minas Gerais, em outubro de 2009, o Tribunal Regional Eleitoral (TRE) autorizou a criação de uma seção eleitoral no complexo penitenciário. Segundo o presidente do TRE, o desembargador Almeida Melo, "além de assegurar o voto dos presos provisórios, a iniciativa contribui com o processo democrático e com direito de cidadania dos detentos que não possuem sentença transitadaemjulgado". Segundo o deputado Ademir Lucas, a instalação de uma seção eleitoral na Nelson Hungria e em outras penitenciárias de Minas Gerais é mais uma prova de transparência e incentivo à democracia. "Dessa forma estamos resguardando o direito ao sufrágio dos detentos que não possuem condenação criminal contra si", destacou. A solicitação de criação da seção eleitoral especial no complexo penitenciário de Contagem contribuiu, ainda, para a ampliação da medida à outros municípios mineiros, como Manhuaçu, que também contará com seção eleitoral emcadeia pública. Em Minas, somente as cidades de Belo Horizonte, Betim e Pará de Minas já contam comseções eleitorais em estabelecimentos prisionais.

A Nelson Hungria
O presídio de segurança máxima Nelson Hungria está localizado na região de Nova Contagem e conta hoje com mais de 1.000 detentos. Atualmente, a Nelson Hungria recebe detentos principalmente de Contagem e de regiões próximas, como Ribeirão das Neves, Venda Nova, Betim e São Joaquim de Bicas. Ela possui mais de 750 funcionários, entre eles cerca de 550 agentes penitenciários. Dentro da prisão são desenvolvidos projetos de reinserção social e conscientização dos internos. Os presos também contam com tratamento médico-psicológico completo, recebendo medicação adequada e consultas.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

CNJ recomenda que tribunais exijam contratação de presos em licitação

Por Cecília Olliveira

O Conselho Nacional de Justiça recomendou, na última sessão do ano, na semana passada, que os tribunais do país promovam ações visando ao aumento das vagas de trabalho para os presos e egressos do sistema prisional. Entre elas, a inclusão, nos editais de licitação de obras e serviços públicos, de exigência para que as empresas vencedoras das concorrências abram vagas para ex-detentos.

As oportunidades de trabalho também dev
erão ser direcionadas para quem está cumprindo pena alternativa e para jovens em conflito com a lei. A recomendação do CNJ faz parte do programa Começar de Novo, que estimula empresas, órgãos públicos e entidades a oferecer vagas de emprego e cursos de capacitação a presos e egressos do sistema carcerário, como forma de combater a criminalidade, dando uma oportunidade no mercado de trabalho

O Programa



Lançado em Dezembro de 2008 pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e pelo Supremo Tribunal Federal (STF), o Programa “Começar de Novo”, tem como objetivo facilitar a reinserção de presidiários no mercado de trabalho, após o cumprimento da pena, por meio de ações que estimulem as empresas e a sociedade, de um modo geral, a aceitar e contratar estas pessoas.

Tem a proposta, ainda, de oferecer educação e capacitação profissional para deixar estes ex-presidiários aptos para conseguir um emprego e, dessa forma, prontos para retornar ao convívio social.

Com informações do Casos de Polícia e Forum Brasileiro de Segurança Pública


segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Presídio de Curvelo (MG) investe na ressocialização de detentos

Da Agência Minas


Biblioteca, horta, oficina de conserto de bicicletas, salão de beleza, oficina mecânica e escola. Tais espaços estão à disposição dos presos que cumprem pena no Presídio de Curvelo, na região central de Minas. Coordenada pela Subsecretaria de Administração Prisional (Suapi) da Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds), a unidade acolhe cerca de 150 detentos, que têm oportunidades de estudo, trabalho, atividades artesanais e orientação espiritual no local.

Seguindo o modelo já i
mplantado demais unidades prisionais do sistema, os presos também têm assistência médica, odontológica, social, jurídica e psicológica. O detento Eurípedes Moreira Costa, de 26 anos, revela como é o serviço na oficina de bicicletas. “Eu e mais cinco colegas trabalhamos aqui. Eu sou uma espécie de professor para eles, porque aprendi sozinho, ainda criança, o serviço. Lixo, pinto, monto, desmonto. É muito bom ensinar para quem quer aprender”, alega.

Ele explica que as bicicletas ou peças vêm das apreensões feitas pela Delegacia Regional de Curvelo. Após recuperadas, as bicicletas serão doadas para serem reaproveitadas em projetos sociais com jovens. No mesmo galpão das bicicletas, encontram-se ainda o maquinário de uma oficina mecânica. O material consiste em um elevador hidráulico, uma “girafa” (máquina para retirar motores de carros) e quatro caixas de ferramentas, viabilizadas pela Superintendência de Atendimento ao Preso (Sape) da Suapi.

Horta

Em breve, uma área do presídio receberá telhas e abrigará a oficina. Antônio Geraldo Lopes Rodrigues, conhecido como Nenzinho, de 49 anos, é o detento que coordenará o espaço: “Já trabalhei com mecânica e sei manusear bem essas ferramentas. Logo sairei da prisão, mas pretendo voltar para auxiliar o pessoal nesse serviço. Também promovo aqui um estudo bíblico em 15 lições, que tem até certificado. É importante continuar meu trabalho de evangelização”, declara.

A horta do presídio também está sob a responsabilidade de Nenzinho, que divide a função com um colega detento. Nenzinho fala com orgulho dos produtos cultivados. “Tem alface, tomate, couve, quiabo, cebolinha, salsinha, milho, banana, um pequeno pomar e um viveiro de mudas. A produção é vendida para a freguesia e para o nosso consumo”, destaca.

Quando o assunto é artesanato, é possível encontrar na unidade trabalhos artísticos de muita criatividade, que utilizam diferentes materiais, inclusive os recicláveis. São aviõezinhos e árvores feitas com alumínio de marmitex, casinhas montadas com palitos de picolé, patos em dobradura e bonecas de crochê, tudo confeccionado pelos detentos.

A reinserção dos internos no mercado de trabalho formal ou como autônomos, visando o momento em que recuperarem a liberdade, também é prioridade no Presídio de Curvelo. Há seis deles trabalhando na reforma de celas, muro, parte elétrica e hidráulica, em convênio com a Construtora Eficiência. Um salão de beleza dá oportunidade para 12 detentas, que utilizam o espaço de uma sala para serviços de manicure e de cabeleireira, fazendo escova, prancha e tintura de cabelos.

Empregos

A empresa Orthovida emprega dois presos na fabricação de colchões e travesseiros. Também há o aproveitamento de mão de obra local pela Copasa, em trabalhos de perfuração (quatro detentos), pela Construtora Engef (cinco detentos), na Associação de Catadores de Lixo para Reciclagem (dois detentos), e pelo Grupo Plantar, no replantio e viveiro de mudas (oito detentos).

Há ainda parcerias com a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater) e o Instituto Estadual de Florestas (IEF), também para fazer viveiro de mudas silvestres, nativas e ornamentais, além da Companhia de Meio Ambiente e Trânsito da Polícia Militar (CIA MAT), que absorve detentos para a reforma do espaço de uma escola antiga, onde futuramente funcionará a nova sede da companhia.

Ressocialização

O diretor-geral da unidade, Givanildo de Jesus Rosa, conta que aprendeu a acreditar no ser humano e por isso aposta na filosofia da ressocialização. “Seja onde eu for, esta será sempre a minha bandeira. Vejo pessoas mudando verdadeiramente. O maior valor social que eu carrego é o respeito pelas pessoas, estando presas ou não”, relata.

A diretora de Atendimento e Ressocialização ao Preso, Roberta Fernandes Santos, conta que tem um bom retorno por parte dos detentos. “Nosso trabalho tem dado resultados positivos. Muitos dos presos demonstram agradecimento sincero, anseiam por uma nova vida e desejam resgatar os vínculos perdidos. A sociedade deve ter consciência de que estamos preparando esses homens e mulheres pra que eles possam voltar ao convívio da sociedade”, reforça.

Para o diretor-adjunto João Faria de Batista Júnior, o principal ponto do processo de ressocialização é o estabelecimento de laços de respeito. “Quando vejo que um preso quer mudar, me torno companheiro fiel dessa mudança”, garante.

Superação

O depoimento do detento Eustáquio Ribeiro da Silva consiste em um exemplo claro de superação. “Estou preso, mas me considero liberto. Estou livre das drogas, das bebidas e do crime. Para esse caminho eu não volto mais”. Ele alega que hoje tem um olhar diferenciado da vida. E conta que a mudança começou no momento em que entrou para a escola do Presídio de Curvelo, que tem 63 alunos frequentando a modalidade Educação para Jovens e Adultos (EJA).

A vice-diretora e professora de alfabetização, Priscila Fulgêncio Gonçalves, destaca a evolução que a escola provocou no comportamento de Eustáquio. “Quando ele chegou aqui, sempre dizia que não tinha conserto, eu não iria aprender”. Agora ele é muito participativo e demonstra preferência pelo português e interpretação de textos. A melhoria é nítida. Seu esforço é grande e o amor pelo aprendizado também. Não tem como não se apegar a uma pessoa como essa, com tanta vontade de ser alguém melhor”, diz, emocionada.

Priscila Fulgêncio relata que a participação de Eustáquio na XV Semana da Poesia Viva organizado pela Faculdade de Ciências Humanas (Facic), quando ele concorreu com todas as escolas públicas e particulares de Curvelo, num total de mais de 1600 alunos, foi marcante. “Quando soube do concurso, logo manifestou seu interesse em participar. O tema escolhido foi a questão dos valores pessoais. Eustáquio fez o texto sozinho, sem correções, dentro da cela. No poema, ele fala sobre os erros que cometeu e de seu arrependimento.”

Vitória

A conquista do prêmio especial, com direito a R$ 200, um MP4, troféu, placa para o presídio, cesta de chocolate e um curso completo de informática, ainda é motivo de comemoração para Eustáquio. “Fiz a minha poesia, mas nunca pensei que fosse ganhar. Foi o dia mais feliz da minha vida. Fui aplaudido de pé e abraçado por muita gente. Descobri naquela hora que, apesar de estar preso, eu não sou bandido”, lembra.

A premiação teve desmembramentos e Eustáquio recebeu o convite para fazer um curso superior na Facic, totalmente gratuito, podendo escolher aquele que mais lhe agrada. “Apesar de eu estar fazendo o antigo curso primário, o pessoal da faculdade me garantiu que a bolsa vai me esperar, não importa o quanto eu demore em chegar lá”, comemora.

A superintendente Regional de Ensino de Curvelo, Dilcéia Dayrell, convidou o detento a escrever um livro de poesias, que já se encontra finalizado e deve ser lançado no começo de 2010. “Fiquei tão empolgado que escrevi 179 poesias em um mês. Sessenta e nove foram selecionadas para integrar o livro”, explica o detento.

Se perguntado sobre o que sente em relação a tantos acontecimentos, Eustáquio resume que é um vitorioso. “Tenho hanseníase e trabalhava em uma carvoeira, quando notei o aparecimento de uma mancha no corpo. Depois fui perdendo a sensibilidade e quando recebi o diagnóstico, já era tarde e tive que amputar meu pé direito. Meu pé esquerdo também está comprometido. Em breve receberei próteses, doadas por uma faculdade de fisioterapia. Apesar das dificuldades que passei e que tenho passado, veja quantas coisas boas eu consegui!”.

Ele finaliza dizendo que a esperança é o que sempre o impulsiona a continuar lutando. “Além de tudo isso que conquistei, tenho a sorte de ter um grande amor, que é a minha Romilda. A gente está junto há treze anos e ela tem um filho que considero meu. Vamos ficar noivos e casar aqui dentro do presídio”, planeja.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Estado de São Paulo municipaliza liberdade assistida


Do Estadão

O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), de 1990, mudou a forma de lidar com jovens que cometem atos infracionais. Anteriormente se privilegiava a reclusão desse adolescente. Com o ECA, o foco passou a ser a recuperação social na comunidade, por meio da liberdade assistida (LA) - com supervisão de educadores. Agora o cuidado de 10 mil jovens, que cabia ao Estado, será das prefeituras. A Fundação Casa (ex-Febem), que administra 190 unidades de internação ou atendimento de adolescentes infratores no Estado de São Paulo, promete passar o acompanhamento deles para as cidades na virada deste ano. E, assim, adequar-se ao ECA.

Segundo o estatuto, esse trabalho deve ser realizado pelos municípios para garantir o direito à convivência familiar e à inclusão social na comunidade. Essa norma foi reafirmada no Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo, de 2004, e ainda visa a tornar o serviço mais individualizado - o que ajuda a convencer o jovem a abandonar a criminalidade.

"É importante mostrar a um garoto que existem caminhos de sucesso em seu meio, e o crime não é a melhor escolha", defende André Alcântara, presidente de um Centro dos Direitos da Criança e do Adolescente (Cedeca) que atende 200 jovens em liberdade assistida de Sapopemba, na zona leste da capital paulista. Optar pela LA, no lugar do aprisionamento, também é econômico: o Estado gasta pouco mais de R$ 100 por jovem assistido, enquanto um internado custa R$ 3 mil, em média.

"Até hoje há entidades terceirizadas que cuidam de três, quatro cidades e são coordenadas pelo Estado", admite a diretora técnica do Departamento de Proteção Social Especial da Secretaria Estadual de Assistência e Desenvolvimento Social (Seads), Fabíola Lopes. Há, porém, um esforço para mudar, que teve início em 2004.

Até agora, a instituição instalou modelos de gestão em 239 das 645 cidades paulistas - muitas alternaram projetos locais com os estaduais e há aquelas, como a capital, que chegaram a conviver com os dois tipos. Desde 1º de julho, 120 prefeituras provam o protocolo tido como definitivo, que será efetivado em 1º de janeiro em todos os municípios. A Fundação Casa ainda prevê transferir a supervisão dos trabalhos para a Seads.

De acordo com a Fundação, as mudanças seriam benéficas principalmente porque os governos locais têm mais capacidade de identificar vulnerabilidades dentro de comunidades e realizar ações sociais paralelamente ao acompanhamento do infrator. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

sábado, 12 de dezembro de 2009

De mãos dadas contra o crime

Grupo AfroReggae e Polícia Civil do Rio de Janeiro se unem em projeto contra a escalada da violência e das drogas

Por Wilson Aquino - da Revista Época


Determinação O AfroReggae investe na cultura para promover mudanças


Uma parceria entre o grupo cultural AfroReggae e a Polícia Civil do Rio de Janeiro tem dado o que falar. Especialmente depois da morte do coordenador da organização, o professor Eva
ndro João da Silva, ocorrida em outubro, quando as câmeras de rua flagraram policiais militares roubando os bandidos que tinham acabado de assaltar e balear Silva e deixando de prestar socorro ao professor. Em lados opostos neste triste episódio, era de esperar que eles se tornassem adversários. Porém, o AfroReggae deixou claro que não iria desacreditar de toda a corporação devido a um ato isolado. Batizado de “Papo de Responsa”, o projeto consiste em conversas informais com o objetivo de alertar, principalmente crianças e adolescentes, sobre os perigos das drogas e do crime. Paralelamente, tenta derrubar mitos e preconceitos, como os que afirmam que todo policial é corrupto e que bandido não tem recuperação.

Em pouco menos de dois anos, personagens que já se enfrentaram em polos opostos do front têm partilhado experiências e sentimentos diante de plateias de 120 pessoas em média. O “Papo de Responsa” já percorreu cerca de 100 escolas, associações de moradores, clubes e empresas e foi assistido por mais de dez mil pessoas no Rio de Janeiro, em São Paulo e em Minas Gerais. Para 2010 já estão agendadas 88 colégios, alguns em áreas de risco, e existe a perspectiva de o projeto ganhar a América Latina, pelos braços d
a Organização dos Estados Americanos (OEA). Sem a pretensão de dar lições sobre segurança ou dizer aos jovens o que eles devem fazer, policiais da ativa e ex-criminosos falam do seu cotidiano, contam histórias reais que vivenciaram e, acima de tudo, ouvem crianças e adolescentes que têm dúvidas ou curiosidades a respeito das atividades policiais e das criminosas.

As apresentações são sempre em dupla, sendo que o policial não abre mão da indumentária: uniforme preto e pistola no coldre. O ex-bandido costuma usar jeans e uma camiseta do projeto. Com 33 anos de idade, sete dedicados à Polícia Civil do Rio, o inspetor Roberto Chaves é um dos mentores do “Papo”. Especialista em tráfico internacional de drogas e atuação em áreas de risco, ele sempre trabalh
ou em delegacias especializadas no combate ao crime organizado. Por conta disso, participou de vários tiroteios nos territórios cariocas que vivem sob o domínio do tráfico. “Quando via crianças de 12 anos com pistola na mão, pensava: ‘Isso não é responsabilidade da polícia’”, explica Chaves, que lançou as sementes do “Papo de Responsa”, em 2004, com o projeto “Civilzinho”, visitando escolas para dar noções jurídicas aos alunos, numa tentativa de aproximação com as comunidades. Em 2007, foi apresentado ao coordenador executivo do AfroReggae, José Júnior, que se interessou pelo desafio. “Só que havia preconceitos de ambos os lados. Para mim, ONG em favela só defendia bandido e, para o José Júnior, todo policial era corrupto”, relembra o inspetor. Mais tarde, surgiu a ideia de incluir ex-bandidos no projeto – todos já empregados nos programas do AfroReggae para que eles também pudessem explicar os motivos que os levaram a entrar e a sair do crime.

PARCERIA Integrantes do “Papo de Responsa”: derrubando preconceitos

Esses ex-criminosos não são simples ladrões de galinha. Pelo contrário. São assaltantes de bancos e ex-chefões do tráfico, como Ademir Antonio Salerme, 39 anos, que faz dupla com o inspetor Chaves – ao todo, são seis duplas. Salerme atendia pela alcunha de “Ziquinha” e já foi o todo-poderoso da favela de Vigário Geral. Quando foi convidado a participar do “Papo de Responsa” e soube que faria dupla com um policial civil, o ex-traficante ficou desconfiado. Salerme começou a trabalhar em bocas de fumo aos 12 anos, e uma de suas tarefas eras justamente avisar os traficantes sobre a chegada da polícia. Aos 15, ganhou sua primeira AR-Baby , como é chamada a versão menor do famoso fuzil AR-15. Com 17 anos ele já era gerente-geral dos pontos de droga da favela de Vigário Geral, com as funções principais de organizar a ve
nda de cocaína e dar tiro na polícia. Salerme só conseguiu largar a vida criminosa quando foi socorrido pelo AfroReggae, que lhe deu um emprego e salário decentes. “Fazer dupla com policial era uma situação muito esquisita”, confessa o ex-bandido, que, depois de amargar 11 anos de prisão, está aprendendo a ler e a escrever e sonha ser eletricista. “É um exemplo de vida. A história do Ziquinha me emocionou muito”, diz o estudante Rafael Moreira, 16 anos, aluno de uma escola de Niterói, que assistiu a uma apresentação. Apesar de estar do lado da lei, Chaves também sentia o peso da discriminação: “Observava o preconceito no olhar das crianças das comunidades.” Para o coordenador do AfroReggae, o “Papo de Responsa” mostra que, apesar das diferenças, sempre pode haver diálogo quando existe uma causa em comum.



quarta-feira, 27 de maio de 2009

Mais uma chance


Por Cecília Olliveira

Falar de coisas que a gente desconhece é, apesar de irresponsável, algo fácil. Muito fácil, diga se passagem. Falar de coisas que não viu ou ouviu, idem. Difícil mesmo é estar lá, se colocar na pele do outro, para a partir, daí, tomar posição com propriedade. Não foram raras as vezes em que ouvi “eu não faria isso” ou “se fosse eu, dava um jeito”. Mas convenhamos, é bem mais tranqüilo encontrar saída para problemas que não são nossos e achar os nossos sempre maiores e mais difícil de resolver.

Tomar posição é que difícil. Julgar, desacreditar, condenar, mandar matar. Atitude de gente fraca, omissa e por isso mesmo, coautora de qualquer ação que leve um cidadão a ser punido criminalmente. Quando vi o vídeo sobre o trabalho da Daspre, (postado abaixo) produzido pela TV Cultura, me lembrei de algumas pessoas que tem esta posição comodista: falam demais, agem de menos. Estas mulheres podiam ter sido jogadas na carceragem e abandonadas, como ocorre em muitas penitenciárias.

A posição arbitrária de muitas autoridades, que preferem vender a alma ao diabo à cumprir com dignidade seu mandato, causa o colapso da sociedade. As mulheres que participam do projeto Dasprê são o grão de areia no deserto da segurança pública brasileira. São o grão, mas provam que é possível sim ressocializar e reinserir as pessoas que cumprem pena de volta a sociedade, de modo responsável e realmente sustentável.

Não é fórmula mágica e nem é um tiro no escuro que deu certo. Exigiram estudos sociológicos, econômicos, psicológicos, etc. Os centros de estudos de criminalidade espalhados pelo país produzem material consistente sobre segurança. Os pesquisadores são internacionalmente reconhecidos, verdadeiras autoridades no assunto. Mas, as costuras políticas não permitem que políticas de segurança pública efetivas sejam implantadas (não é verdade presidente?).

Existem de fato práticas extremamente bem sucedidas. De acordo com Lucia Casalli, diretora executiva da Funap (Fundação de Amparo ao Preso/SP) das 200 presidiárias que participaram do projeto Dasprê, nenhuma reincidiu. Nehuma voltou a cumprir pena. Nenhuma voltou para a vida do crime. E não é exclusividade deste projeto a recuperação de presos não.

Uma das grandes vitórias contra reincidência criminal e a recuperação de presos é a APAC (Associação de Proteção e Assistência aos Condenados). O modelo APAC é indiscutivelmente mais eficaz que o modelo tradicional da maioria das penitenciárias brasileiras. Enquanto a taxa nacional de reincidência do modelo clássico é de 85%, a da APAC é de 8,62% (!!!). Mesmo para aqueles que não são ‘bons entendedores’ do assunto, a simples comparação destes dois números já diz tudo. Ou quase tudo, já que é impossível entender o porque deste modelo não ser estendido por todo o país. Aliás, é possível entender: SEGURANÇA PÚBLICA NÃO É PRIORIDADE. Prioridade é o Bolsa Família, que ajudou a hastear a bandeira da reeleição.

Muito se fala do preço que pagamos para manter um preso na cadeia. O custo per capita de um preso no sistema comum de privação de liberdade é de quatro salários mínimos, enquanto que na APAC ele custa 1,5 salário. Como se consegue isso? Para que a ‘filosofia’ APAC pudesse alcançar estes índices, foi desenvolvida uma metodologia especifica, fundamentada em 12 elementos, que surgiram após vários estudos e reflexões:

  • Recuperando ajudando recuperando
  • Trabalho Religião Assistência
  • Jurídica Assistência à Saúde
  • Valorização HumanaFamília
  • O Voluntário e sua formação
  • Centro de Reintegração Social – CRC
  • Mérito
  • Participação da comunidade
Claro que o tópico que mais levanta a discussão é o ultimo: Participação da Comunidade. Afinal, todo mundo reclama que não quer “cadeia perto de casa”. Mas a sociedade precisa entender que o aumento da violência e da criminalidade decorre também do abandono dos condenados atrás das grades. Vale lembrar que o indivíduo que delinqüiu voltará, muitas vezes para aquela mesma comunidade, sendo bom para todos que este volte melhor, verdadeiramente ressocializado. Se esconder não resolve. Jogar a culpa nos outros tampouco.

O que você pode fazer? Pesquisar para votar melhor, não ser omisso, cobrar os representantes legais que você escolheu e não desligar a TV só por que as notícias não são tão boas quanto você queria.

Para conhecer mais sobre o modelo APAC, visite o site: www.apacitauna.com.br

Para saber mais da Dasprê ligue para (11) 3150-1087

ESTATÍSTICAS DA APAC -
DADOS ACUMULADOS DESDE 1997

População Prisional
• Fechado – 60
• Semi-Aberto Trabalho Externo – 20
• Semi-Aberto trabalho Intra-Muros – 41
• Aberto – 18

Reincidência
• Mundial – 70%
• Nacional – 85%

Reincidência na APAC
• Com Método – 8,62%
• Sem Método – 18,43%

Saída sem Escolta Policial
• 12109 com retorno
• 05 sem retorno

Atendimentos realizados na APAC
• Médico – 1012
• Odontológico – 2954
• Psicológico – 1219
• Jurídico – 3308
• Presidente – 3799

Estudos
• Fundamental – 32
• Tele-Curso 1º Grau – 19
• Tele-Curso 2º Grau – 12
• Computação – 04
• Violão – 03
• Música – 12
• Curso Técnico – 13
• Universidade – 02

Trabalho
• Barbearia – 02
• Tear Manual – 00
• Perfuração de Pedras – 00
• Fabricação de Velas – 02
• Tapeçaria – 04
• Artesanato – 28
• Fábrica de Blocos – 04
• Marcenaria – 04
• Horta – 02
• Administração – 02
• Cozinha – 04
• Obras – 06
• Jardim – 02
• Ergom – 06
• Fábrica de bolas - 12
• Fábrica de sandálias - 03 Cultural:

Grupo Encantadores de Histórias -10

Custo Percápita
• Sistema Comum – 4 salários mínimos
• APAC – Um salário e meio

* Dados atualizados em 17/04/09 no site da Apac


Mais Lidos